Jantar do passado


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Nossos clientes, vez ou outra, pedem para repetirmos pratos que ficaram na memória e foram hits
Nossos clientes, vez ou outra, pedem para repetirmos pratos que ficaram na memória e foram hits
A ideia nos era recorrente porque, como fazemos mudanças periódicas no cardápio, é normal que a gente vez ou outra sinta saudades das glórias e ria dos desastres do passado. Embora o natural seja o esquecimento, dia após dia a gente vê se acumular a poeira que mitiga o padrão que um dia alguns pratos tiveram: primeiro somem as cores, depois os formatos, debaixo do sedimento a gente nem vê mais o que era carne, ou vegetal, os molhos se enlameiam. Parece que repousam no fundo do mar, após 30 metros de profundidade tudo está cinza azulado, não importa o quão vivo foram. Então deve ser isso, todas as preparações do Azul um dia serão esquecidas debaixo de 3 atmosferas e tudo será azul. 
 
Mas os clientes, vez ou outra, pedem um repeteco, espanam o pó dos pratos e relembram coisas que a gente já se esqueceu. Por isso, salão e cozinha se empenharam em trazer à gala alguns dos nossos hits do passado. Acho que foi o jantar mais difícil que já fizemos, o mais duvidoso também, porque seria como testar nós mesmos naquilo que um dia já fizemos...
 
A seleção dos pratos não foi difícil, até porque decidimos pela democracia de ter uma carne vermelha, um peixe e uma massa. O peixe era tiro certo: a tilápia com molho de limão siciliano. Mas faríamos uma troca: o próprio limão siciliano que tem a cara indissociável da Itália, não nossa. Chegamos a uma receita que era quase igual a outra, só que melhor. Substituímos o Siciliano por limão tahiti, laranja e cúrcuma. Assim trabalhamos com os nossos ingredientes, mais baratos e melhores. 
 
Daí alguém se lembrou do leitão, um clássico nosso, uma receita especial que nos foi dada pelo Dr. João, de Ribeirão Preto. Dissemos “não” - vamos à história do leitão de leite. Lidar com a carne não é simples nem para mim nem para minha irmã. A gente se benze, avalia o crime, pede perdão e divide a culpa. Mas o leitão era outra história, não se tratava de um pedaço, mas do cadáver inteiro e com a marca do tiro na cabeça. Íamos levando, até o dia em que liguei para encomendar o porco e ouvi assim do outro lado da linha: “ Querido, sabe aqueles dois leitões que separamos? Pode abater, tem encomenda.”
 
Minha máscara caiu, porque justamente uma das desculpas de nós, não vegetarianos, é dizer que o bicho tá morto mesmo, não faz diferença. Claro que isso é só uma desculpa esfarrapada, mas doeu ter sob meu poder direto o destino de vida ou morte de dois leitões. Decidi pela morte, mas pela última vez. Então, leitão não.
 
Outro grande sucesso, foi o filé com sálvia e presunto de Parma com molho de vinho Marsala, acho que esse é o mais gostoso vinho fortificado que há. E para fechar, a panna cotta, que ao longo dos anos teve aprimorada a receita original, de modo que a nossa tem a nossa cara e, arrisco dizer, muito mais gostosa.
 
Correu tudo certo, melhor que o esperado, o que era para acontecer em um dia viraram três. O cacoete do preparo e montagem dos pratos ainda nos perseguia, portanto, serviço mais fácil e rápido. A satisfação da cozinha foi boa, apenas boa. A gente gosta mesmo é de sofrer. Assim, trabalhar com segurança, sem o frio na barriga gerada pela expectativa do sabor novo, pode ser bom, mas apenas bom.  
 
 
DICA DA SEMANA
 
Batata “frita” crocrante
 
Quem é que não gosta de uma boa porção de batatas fritas? Para prepará-las de forma mais light, usando menos óleo, siga essa receita. Descasque oito batatas e corte-as em formato de palito. Despeje em uma assadeira, salpique 1/4  de xícara de farinha de trigo, até que todas fiquem cobertas. Regue com três colheres (sopa) de azeite e depois espalhe as batatas em uma única camada. Em seguida, coloque um pouco de sal e leve ao forno. Deixe as batatas assarem, a 220ºC, por cerca de uma hora, até ficarem douradas. Elas ficam soltinhas e crocantes. E com uma vantagem: levam pouco óleo.

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