Agroquímica


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Não há possibilidade de se conjugar as palavras ‘ambientalmente sustentável’ com ‘agrotóxicos’
Não há possibilidade de se conjugar as palavras ‘ambientalmente sustentável’ com ‘agrotóxicos’
No filme Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, dois estudantes arrogantes, julgando-se acima da lei que governa o mundo dos tolos – nós –, decidem matar um amigo de classe somente para provar que é possível, usando-se a inteligência, cometer um crime perfeito e escapar incólume. Sádicos e cínicos, eles decidem dar uma festa após o crime, ajeitam a sala para as visitas, e o móvel, que servirá como apoio para petiscos e bebidas, é uma arca, que guarda o corpo do rapaz assassinado. É uma metáfora, claro, há várias interpretações, mas não é raro a gente participar da festa que encomenda nosso próprio funeral. 
 
Parece que acertaram a “compra e venda do século”: a Monsanto – gigante norte-americana, líder mundial na produção e venda de sementes para o mundo inteiro -  pela Bayer – líder mundial na produção de protetores de cultivo. Olha só como inventam um nome bonito para o bom e velho agrotóxico, pesticida e afins. 
 
O chamego já durava um tempo, a Monsanto querendo mais, até que o valor de 66 bilhões de dólares, 44% a mais que o valor individual das ações, foi suficientemente atraente e o negócio está contratualmente fechado. Ainda não foi sancionado pelos órgãos reguladores, mas a depender dos sócios de ambas as empresas é coisa certa. 
 
Monsanto e Bayer nos enviam os convites para a festa: “O setor agrícola está no centro de um dos maiores desafios dos nossos tempos, que é alimentar, de forma ambientalmente sustentável 3 bilhões a mais de pessoas no planeta até 2050. Ambas as empresas acreditam que esse desafio requer uma nova abordagem que integre, de forma mais sistemática, o conhecimento em Sementes, Traits e Proteção de Cultivos, incluindo biológicos, com um profundo compromisso com a inovação e práticas de agricultura sustentável”
 
Primeira mentira: não é a Monsanto que nos alimenta, nem os 7 bilhões, hoje existentes, nem os supostos 3 a mais até 2050. É a agricultura familiar que produz mais de 70% dos alimentos que consumimos! A Monsanto alimenta gado - carne que, na maior parte, vira hambúrguer ou cortes nobres. Aqueles não deveríamos comer, esses, passamos sem, ou deveríamos comer de vez em quando. Segunda mentira: não há possibilidade de se conjugar as palavras “ambientalmente sustentável” com “agrotóxicos”, nem “plantação transgênica estéril” com “biodiversidade”. O que acontece, vocês podem notar, é que grandes empresas gastam muito na melhoria de suas imagens. Como a Monsanto é a maior produtora de sementes transgênicas de soja e milho, por exemplo, ela precisa investir pesado em qualquer coisa que pareça fofo e sustentável, o mesmo vale para a Bayer, que precisa dizer-se líder em protetores de cultivo para que a cabeça da gente não se lembre de agrotóxico. 
 
Aliás, a Bayer precisa de fato nos fazer esquecer que no século XIX comercializava heroína como remédio, que foi contratada pelos nazistas e utilizou trabalho forçado. A Monsanto, por sua vez, melhor esconder que foi a produtora de um dos químicos mais tóxicos já produzidos, hoje banidos, os PCBs. Além do herbicida laranja utilizado na guerra do Vietnã.   
 
Na verdade, essa fusão tem um nome bem feio: agroquímica. Não à toa, alguns chefs franceses importantes e fazendeiros americanos protestaram e pedem que os órgãos regulamentadores não ratifiquem a transação. Há risco para a diversidade dos alimentos, há risco para a qualidade dos alimentos. A se concretizar, ficará nas mãos de uma única empresa o controle da produção e do manejo das sementes de soja, milho e sorgo, em todo o mundo. E com isso, a qualidade e o veneno nas carnes e nos laticínios que consumimos estarão ao bel prazer de um único cliente, capaz de impor pela força seu gosto. 
 
Em tempo: não estou a dizer que essas empresas sejam inúteis para a humanidade, mas que esse modelo de negócios, onde há enorme concentração de poder e dinheiro, é pernicioso para o desenvolvimento do ser humano e de suas atividades.       
 
 
DICA DA SEMANA
 
Cartola
 
A Cartola é um doce brasileiro, da culinária Potiguar, da bela Natal de Câmara Cascudo. Os ingredientes originais são apenas dois basicamente, bananas e queijo de coalho. É simples de fazer mas tem umas dicas. A primeira é que o leve amassar da banana deve ser feito com ela ainda na casca. Faz-se uma pressão com as mãos até que dê uma leve esborrachada. Depois passe na frigideira com manteiga. Pode ser a prata ou a nanica. Reserve a banana e frite o queijo e jogue imediatamente por cima das bananas. Por cima de tudo açúcar e canela polvilhados a gosto. Outra dica, lembrem-se, se é para fritar, a banana tem que estar madura, porém firme. Outra dica, a gente pode adicionar outro ingrediente: uma torrada de pão amanhecido. A montagem ficaria assim: torrada, banana, por último o queijo.

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