Dias com mais bolo


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O forno ligado, a massa sendo assada produz uma fragrância que aconchega, é como um cafuné de vó
O forno ligado, a massa sendo assada produz uma fragrância que aconchega, é como um cafuné de vó
A boa vida gosta de um bom cabo de guerra, do equilíbrio entre ideias sem a imposição das vontades. Uma turma puxa para cá a outra puxa para lá. Acontece de uma turma se avolumar e a outra minguar, o que faz com que a vida caminhe numa determinada direção, mas é vital que todos venham. A força que a turma da “razão” utiliza tem que ser forte o suficiente para que se mude o passo, delicada o bastante para que os oponentes se mantenham de pé - e a corda esticada. 
 
Disse isso porque satanizaram uma das coisas mais significativas das nossas cozinhas mineiras: os bolos caipiras. Tudo bem, sei que não é fácil defender a mistura de ovos, farinha de trigo branca, açúcar e manteiga, é realmente bombástico. Mas dá para defender sempre, de cabo a rabo, de fio a pavio, de A a Z, o equilíbrio. É só comer pouco e de vez em quando. Olha só, qualquer receita de bolo - até hoje todas que eu testei funcionaram perfeitamente - pode ter o açúcar reduzido em até 30% sem nenhum comprometimento, quer seja do sabor ou do resultado físico do bolo. Outra troca, que a meu ver só melhora o sabor, é substituir o açúcar branco refinado ou cristal pelo açúcar marronzinho, o mascavo. Mas daí haverá alteração na cor e sabor do bolo. Além disso, para salvar os bolos caipiras, entender que bolo de dia a dia não tem recheio e/ou cobertura, esses são trajes de festa.
 
Na outra ponta, o movimento contrário foi o surgimento de algumas casas servindo exclusivamente bolos caseiros ou caipiras. Tais estabelecimentos buscam evocar memórias afetivas, imagens dos bolos que tantas vezes vimos sair dos fornos de nossas casas. Eles não se enganam, os bolos são quase um uníssono de conforto. O forno ligado, a massa sendo assada produz uma fragrância que aconchega, é como um cafuné de vó. Essas lojas não remam sozinhas, é um movimento. Um bom blog é o Essência da Joyce Galvão, e ela iniciou a campanha “Para dias com mais bolo”. Vimos surgir também uma infinidade de apetrechos para bater, assar e decorar desde bolinhos individuais até bolos de andares. E, claro, os programas de televisão cuja temática é a confeitaria. 
 
Não é de se estranhar. O primeiro “bolo” ou pãozinho doce desembarcou em terras brasileiras num abril de 1500. Pedro Álvares Cabral trouxe, sabe-se lá em que condições, fartéis e confeitos que foram oferecidos aos índios na primeira mesa posta para um café no Brasil. É a mesa primordial, ainda que pérfida, ainda que coberta com a toalha da arrogância, foi posta para que os índios se sentassem e pudessem experimentar as iguarias trazidas pelos portugueses. Pedro Álvares Cabral estava bem vestido, calçado, sentado em cadeira, exibia um grande colar de ouro. Os índios não gostaram de nenhum sabor, mas identificaram aquele teatro como uma cortesia, assim como nós, sempre.
 
 
DICA DA SEMANA
 
Berinjela
 
Não é de hoje que elaboramos técnicas para minimizar o amargor da berinjela. O que fazemos aqui no restaurante é, depois de lavada e cortada, salgamos e deixamos escorrer numa peneira por uns 15 minutos. Ela desidrata pela ação do sal e o amargor diminui. Mas vimos dias desses uma dica da Rita Lobo que ficou realmente deliciosa. Corta-se a berinjela ao meio no sentido longitudinal, faz-se cortes em diagonal, cortes fundos e besunta com uma mistura de mel e cominho. Depois põe para assar. O importante é passar o mel por toda a berinjela, bem como, que a quantidade seja suficiente para entrar um pouco pelos cortes. Fica deliciosa! 

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