O sal da política


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Qualquer dona de casa sabe a lição: se o timão das despesas não for bem manejado, o barco entorna
Qualquer dona de casa sabe a lição: se o timão das despesas não for bem manejado, o barco entorna
Pode ser que o problema inicial tenha sido o sal. Lembraram-se da grandiosidade desse mineral, que há séculos anima nossa comida e corpo; da riqueza de que já foi dono, ao ponto de um pequeno saquinho valer o esforço de um mês de trabalho suado. Mas agora seria diferente, a rocha salina seria a responsável por aprisionar, debaixo de si, o mar negro que se formou do acúmulo de microrganismos do mar primordial. Parece que ouvimos que as reservas desse petróleo brasileiro seriam do tipo infinitas e que a sua qualidade era boa, seria o petróleo brasileiro de melhor preço no mercado.
 
Nós, brasileiros, não somos o tipo de povo, graças a Deus, que se sentou sobre uma barrica de óleo e cruzou os braços - não, nós trabalhamos, nós plantamos. Mas não é de se admirar que o comando do país pensasse que boa parte dos nossos problemas financeiros estariam resolvidos, e qualquer rombo, ainda que do tipo Petrobrás, se transformasse em querelas percentuais. E pior: gastou-se o dinheiro antes mesmo que ele de fato chegasse, sei lá, sem sopesar por exemplo, a enorme dificuldade de se perfurar 2 km de sedimentos mais 2 km de rocha salina para se chegar ao pré-sal.
 
Qualquer dona de casa sabe a lição: se o timão das despesas não for bem manejado, o barco entorna e a compra do mês acaba antes da chegada do novo salário. E adiantar o salário do mês seguinte só faz nos endividar. E, se tem panelas vazias, vai ter manifestação, vai ter panelaço contra a crise econômica. 
 
Mas o que é crise econômica? Pode-se injetar a ideia de crise? Fuga de capitais, notas dadas por agências, que nem aqui moram - meia dúzia de pessoas podem propiciar uma atmosfera de panelas vazias que calam qualquer presidente? Lembrei-me de uma história do meu livro de alfabetização, Caminho Suave, era assim:
 
Um homem pobre e digno ganhava a vida como vendedor de frutas e hortaliças na beira da estrada. Criou seus filhos, dando-lhes educação, o que vestir, o que comer, decentemente. Tanto que conseguiu formar “doutor” um dos seus filhos, que foi estudar na capital e, por lá, “fez” a própria vida, pode-se dizer, enriqueceu. Depois de muito tempo sem visitar o pai, enfim, resolve fazer aquela visita que é mais de cortesia. Encontra o pai na mesma barraca de sempre lotada de clientes, os produtos anunciados a plenos pulmões. O filho se indigna, dizendo que não é possível tamanha ignorância, se por acaso o pai não tinha ouvido falar da crise galopante. O pai consciente de sua humildade e da cultura do filho, resolve ouvi-lo. Aquieta-se, vai comprando cada vez menos mercadorias, menos variedade, começa a alarmar os clientes com as previsões funestas do filho e por fim acaba seus dias em meio a restos de verduras murchas e moscas varejeiras. Essa história marcou minha infância não pela lição econômica que ela enseja, mas pela desolação de um pai tão bom e um filho ingrato.
 
Agora, vejam, há quem diga, orgulhoso, que dessa vez nossa história política não acabou em pizza. Resta a dúvida: causa estranheza ver a mesa posta para quase todo mundo, menos para uma.
 
 
DICA DA SEMANA
 
Cabotiá
 
Uma das dificuldades na cozinha é descascar a abóbora cabotiá. Não tem técnica, não tem jeitinho, será sempre difícil. Claro, com o tempo a coisa melhora, a força é necessária, alguns apoiam o legume, outras pessoas descascam segurando os pedaços no ar. Tanto sacrifício em vão, porque na verdade, ninguém precisa descascar a cabotiá. Isso mesmo, façam com a casca, independentemente da receita: assada, cozida, ensopada, sopa, caldo. O melhor de tudo é que com a casca ela fica ainda melhor e nem altera o tempo de cozimento. A única obrigação é lavá-la muito bem com escova de cerdas e sabão, porque a casca rugosa está quase sempre bem suja, com barro mesmo, e as sujeiras se alojam na superfície, daí, só com uma escova de cerdas a limpeza fica satisfatória. Podem testar! 

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