Terra sem males


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O trabalho em harmonia com a natureza, negociando com o solo e recursos naturais, numa espiral de vida
O trabalho em harmonia com a natureza, negociando com o solo e recursos naturais, numa espiral de vida
“A vida é o conjunto das funções que resistem à morte”
(Marie Bichat)

 
Isso vai acabar dando certo, por um motivo muito simples: é mais rentável. A primeira vez que visitei uma fazenda produzindo e criando conforme o sistema de agrofloresta, pensei estar no paraíso das lendas rurais, uma felicidade só. As porcas com seus leitõezinhos chafurdados na lama, que lhes é de direito dentro de um lugar que não tem dentro e fora porque simplesmente não haviam cercas. A pergunta sai da boca de alguém, mas todos queriam saber: mas eles não somem por aí? Somem sim, alguns morrem comidos por bichos, alguns poucos de doenças, mas quase na mesma proporção do confinamento! Porque soltos, eles quase não ficam doentes, soltos eles comem o que a natureza dá, recebem um reforço com milho apenas. Soltos eles não consomem remédios, e são muito valorizados no mercado, porque a carne de qualquer animal criado solto será muitas vezes superior. A conta fecha positiva, é melhor deixar a natureza agir, lição dura de se ouvir depois do nosso “avanço”...
 
Pode-se dizer que essa interação plantação/criação e floresta tem um nome específico, que nem o corretor do editor de texto reconhece: agricultura sintrópica. Seria o caso de simplesmente explicar o que a palavra significa, mas a essência do conceito é muito mais importante, como se no fundo eu tivesse interesse em vender uma ideia que parece tão boa: o trabalho em harmonia com a natureza, negociando com o solo e os recursos naturais, o dar e o reter dispostos numa espiral de vida. É belo como todas as coisas simples o são, e verdadeiro, porque o contrário do simples é o falso. 
 
Para chegar a isso, o espetacular Ernst Götsch foi cientista e ao final humilde, porque reconheceu que, embora estivesse fazendo um trabalho de referência, a verdade estava no contrário. Ernest é suíço, como cientista, trabalhava na Suíça com melhoramento genético de plantas forrageiras, de repente percebeu que a natureza faria melhor do que ele - era só questão de manejo.  Saiu para o mundo, foi para a Costa Rica em 1970 e começou projetos de agricultura sustentável com refugiados. Em 1982 chegou ao Brasil e começou o cultivo do cacau próximo a Ilhéus - e hoje, exporta para a Itália o melhor cacau brasileiro para fazer o melhor chocolate do mundo a custo zero, isso mesmo. E como ele consegue? Conhecimento empírico e científico que ele reparte com quem tiver coragem de ouvir. Ninguém acreditava que fosse possível conviver pacificamente com a mais temida praga do cacaueiro, a vassoura-de-bruxa, ele provou que sim. 
 
Ele provou que qualquer solo pode ser recuperado desde que se proporcione o ciclo vital de renovação: começa com a proteção do solo degradado com o capim mesmo. Plantam-se árvores de espécies variadas que fornecerão mais matéria orgânica para protegerem ainda mais o solo. Todos já vimos isso, o solo debaixo das palhas está sempre cheio de vida. Quando as árvores grandes aparecem e crescem, elas filtram o sol intenso e suas folhas são calhas que armazenam e derrubam o orvalho sobre toda a vegetação de baixo. Está completo o ciclo. Um agricultor disse que é como plantar água, dá para escutar os pingos da sua chuva particular.
 
A sintropia fala a língua do mercado, ainda bem. Mas que a gente não se esqueça que Ernest chegou a ela porque acredita que a finalidade de tudo o que é vivo no universo transcende o mundo material. Penso que ele veio parar aqui porque foi “chamado”: Ernest Götsch é um puro sangue Mibyá-Guarani - sozinho, produziu a sua Terra sem males.  
 
 
DICA DA SEMANA
 
Grão de bico
 
Nunca, nunca mesmo se esqueça de colocar o grão de bico de molho de um dia para outro antes de utilizá-lo nas preparações. A quantidade de sujeiras e ou toxinas é grande e pode realmente vir a fazer mal. Basta ver a diferença da cor da espuma que vai se formando durante o cozimento. Se não o deixamos de molho a espuma é cinza e cheia de pigmentos, o ideal é que ela seja branca.  Se a intenção for fazer um hommus com o grão de bico, tenho duas dicas. Depois de enxaguar o grão de bico que ficou de molho, coloque para cozinhar com uma colher de chá de bicarbonato de sódio na água. Isso ajuda na quebra de moléculas que dificultam a digestão e formam gases. Outra, reserve a água do cozimento para bater os grãos no liquidificador, assim você adiciona mais sabor. 

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