Datas e lembranças


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Quando meu pai bancava o cozinheiro já sabíamos que viriam coisas boas, cheias de sabor
Quando meu pai bancava o cozinheiro já sabíamos que viriam coisas boas, cheias de sabor
Já esqueci o aniversário da minha filha, por meio período - antes que metade do dia escorresse, me lembrei, fui perdoada. Certa vez, o aniversário do meu marido, viajamos justamente para comemorar a data, e no dia me esqueci e ainda fiquei perturbada com o recebimento de tantas mensagens, sem me dar conta que eram de felicitações. Aniversários de casamento então, nem pensar. Por sorte minha mãe faz aniversário dia 1º de janeiro, daí é fácil, mas da minha irmã que aniversaria no mesmo dia, já me esqueci. Portanto, me lembrar uma semana antes que deveria escrever sobre o Dia dos Pais, seria difícil. Mas há quem diga que o que nos falta é o que faz mais presença. Leio o trecho do livro de Marlon James que promete um dia escrever sobre a mãe, já que a ausência do pai é sempre um tema literário mais sedutor, e me enterneço porque meu pai não está ausente, nunca o fora e ao menos para mim, penso que jamais será.
 
Meu velho e nordestino pai pensa que serviços domésticos estão alojados numa dimensão que ele não habita, são legados à minha mãe por castigo e merecimento. Mas algumas vezes, não sei quantas, ele tomava para si as panelas. E o injusto disso é que minha mãe estava na cozinha, todos os dias, equilibrando panelas sem graça, num malabarismo famélico de faquir, mas era só meu pai bancar o cozinheiro que nós sabíamos da coisa boa que comeríamos, cheia de sabor, como ele próprio gostava de dizer.
 
Meu pai era especialista em alguns pratos da necessidade nordestina, que para nós significava calor, união e sabor.  Se num domingo, antes mesmo de me levantar, houvesse um cheiro de cebolas fritando, já sabíamos se tratar do nosso pai. O repertório era decorado: depois da cebola era a vez dos miúdos gritarem na frigideira, em seguida os gritos seriam abafados pela farinha de milho. Essa comida não requeria mesa posta ou talheres, era só a colher para cada filho. Outras vezes, quando o clima ou a saúde pedia, era a vez da Cabeça de Galo, já comentei desse prato por aqui: um prato de duas texturas: ovo pochè, e pirão mole; único sabor: pimenta do reino e quente, muito quente mesmo. Os efeitos humorais são os mesmos do escaldado de fubá.
 
Contudo, a comida em casa atendia a dois quesitos, os mesmos que se vê em qualquer classe social: o da necessidade e o do prazer. Não sabíamos que degustávamos as farofas ou quiçaças de miúdos que o pai fazia, essa palavra não existia para nós, mas hoje o fio da memória atende a Gestalt completa: a comida e os sentimentos, a comida e a essência, o tutano, o caldo da nossa cultura. 
 
Deveria ter dito essas coisas na semana passada, mas infelizmente me esqueci. Acho que não faz mal, porque tanto as minhas lembranças como as de vocês serão ouvidas e lidas além de vocês e de mim. 
   
 
DICA DA SEMANA
 
Arroz de forno
 
É comum o arroz de forno que fazemos em casa ficar seco e sem graça. Na minha casa minha mãe sempre utilizou o arroz já pronto para transformá-lo em arroz de forno e assim evita o desperdício, ótimo! Mas a gente pode querer fazer um arroz de forno como prato principal quando não houver arroz a ser aproveitado e aí podemos caprichar. A 1ª dica é refogar o arroz já com alguns temperos, assim o arroz realmente pega tempero: cebola, alho, pimentão, cenoura. Depois que o arroz estiver pronto acrescenta-se o que mais você quiser.  Outra dica, antes de levar ao forno unte o refratário com manteiga, coloque metade do arroz no refratário e espalhe requeijão cremoso, coloque o arroz restante e novamente cubra com requeijão, assim a umidade e cremosidade fica por todo o refratário.   

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