A carne e a atitude política


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Mercado de carne sofre com diminuição significativa de criadores de gado e de frigoríficos de abate desse animal
Mercado de carne sofre com diminuição significativa de criadores de gado e de frigoríficos de abate desse animal
O mercado brasileiro de carne bovina vem enfrentando sérias dificuldades, o ano de 2015 não foi bom, 2016, tampouco. Se somos apressados, comemos cru e de cara atribuímos a má fase à crise, tão comentada, mas podemos, ao contrário, prestar atenção aos movimentos que acontecem ao nosso redor. O nó bovino pode ser dividido em duas pontas: a queda no consumo interno e externo da carne de boi, e a pouca entrega de gado para o abate, porque houve uma diminuição significativa de criadores de gado e de frigoríficos de abate desse animal. Mesmo com a possibilidade de venda de carne para os Estados Unidos, não há perspectiva de ganhos que compensem a enorme perda, esse é o cenário. 
 
Saindo da economia, esquecendo-se do PIB para focar no desejável IDH, essa não é necessariamente uma má notícia. A questão é definir de que lado da trincheira se está. Nem é preciso recorrer a dados, que normalmente atendem aos interesses de quem paga a pesquisa: cresce o número de vegetarianos, assistimos uma queda no consumo de carne per capita. A França (!) tem se escandalizado com a brutalidade com que os animais são criados e mortos para nos alimentar. O fato é que o conhecimento da situação de quase vida dos animais, e a nova consciência ecológica, tem colocado em cheque o bife nosso de cada dia. Não é por outro motivo que gigantes do ramo injetam milhões em publicidades com o claro intuito de reverter a imagem da carne vermelha, principalmente. 
 
Tony Ramos, o eterno galã, casado e amante da mesma mulher, parece ser o tipo de sujeito confiável para nos dizer o que comer. Roberto Carlos, vegetariano histórico, ascendeu ao rico e sarcástico chamado do setor para também nos dizer que a carne vermelha mudou o tom. Mentira, foi só questão de dinheiro, milhões. A revista Prazeres da Mesa, iniciou esse mês uma série de 12 matérias sobre a carne vermelha. À frente, um churrasqueiro, jovem, mineiro, que de cara fala da quantidade de empregos que o setor gera e os benefícios proteicos. O pior é o jabá. Afinal, quem está pagando essa matéria? Tanto faz, olha só o que mais a gente pode descobrir com uma simples busca na internet: A JBS, empresa brasileira de processamento de carnes foi fundada em 1953 pelo sr. José Batista Sobrinho, ou Zé Mineiro, algo bem inofensivo. Em 2007, a empresa já era grande e decidiu abrir seu capital, tornando-se controladoras de outras gigantes do setor: Friboi, Seara, Swift, Big Frango, entre outras. 
 
Olha só, hoje a empresa é controlada por uma Holding chamada J & F Participações e sabem quem é o presidente dessa holding? Ninguém menos que o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Pode-se escolher diversas formas para se escandalizar com o tamanho dessa empresa, mas julgo que um dado apenas será suficiente: em 2002 a JBS doou 200 mil reais para as campanhas eleitorais do Brasil, já em 2014 ela doou R$ 391,8 milhões! A dívida líquida (informada) da empresa é de 48 bilhões de reais. Ah! Será que ao menos podemos dizer: ela alimenta o mundo? Não, quem nos alimenta é a agricultura familiar, não canso de dizer: quase 80% da alimentação humana vem da agricultura familiar. Como já disse Michael Pollan: comer hoje é uma atitude política. O nosso arroz com feijão, a verdura, a pouquíssima carne não salvam só as medidas do corpo, podem salvar o mundo. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Quando o óleo é melhor que o azeite
 
Por experiência, acabei percebendo que cozinhar com azeite extravirgem, além de um desperdício de dinheiro, acaba por piorar o resultado final. Isso porque, esquentando-o demais, de forma brusca, ele perde todos os seus benefícios e ainda produz muita fumaça. Portanto, se a temperatura vai passar dos 60 graus prefira sempre o óleo mesmo. Vão dizer que o óleo de canola é melhor e mais leve, acontece que esse óleo é totalmente sintético, melhor mesmo de milho, ou algodão. Há a possibilidade de azeites que não são extravirgem, e servem melhor as altas temperaturas. Para fazer uma maionese caseira, o azeite extra virgem tampouco é melhor que o óleo. O gosto fica forte, interferindo no resultado da maionese. Mais uma vez os óleos leves fazem melhor figura.

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