Às vezes me pergunto se os objetos podem carregar a lembrança de fatos e pessoas ou se tudo não passaria de mera sugestão da gente. A resposta, naturalmente, depende exclusivamente da crença de cada um, do modo como se vê as coisas - digamos que parte de ver duendes e chega até o materialismo absoluto. Mas como acho que uma pitada de metafisica tempera a vida, transcrevo a bela definição de Descartes sobre a metafísica. “Toda a filosofia é como uma árvore, cujas raízes são a metafísica, o tronco é a física, e os galhos que saem do tronco são todas as outras ciências...” Com isso podemos pensar que a metafísica representa nosso mais profundo problema, mas que na verdade nem é problema, é só um desconhecido que se senta a nossa mesa todos os dias.
Sair do nosso meio, adentrar a outro faz soar o apito de: sentido! Num instante estamos alertas. Por isso, quando avistamos ao longe a imponente fieira de palmeiras imperiais, elegante moda botânica da época imperial, nos transportamos para o período colonial. No pó da rabiola do tempo, temos visões de coisas que não vivemos, mas intuímos, lemos, sentimos: senhores, escravos, sinhás, cultura afro, ouro, café...
O casarão, um dos símbolos máximos dos poderosos senhores do passado, está restaurado e seguro de si e mira o horizonte pelas janelas iluminadas: possui ainda um efeito poderoso que nos curva. A senzala, parte mais baixa da casa, com sua porta pequena, faz qualquer um de mais de um metro e setenta se abaixar. Mas foi revestida por madeira tratada, reflorestada. Objetos de arte, pele de bicho compõem um ambiente que agora é só a recepção de um elegante hotel fazenda cheio de “conceito”.
Pela senzala, sobe-se para a casa, a parte branca da casa, o assoalho de 1800 e alguma coisa foi recuperado. Orgulho do proprietário, exibe as manchas que bem podem ter sido de um baile, de uma festa, de um casamento. Aceitamos um cardápio quase vegano, oriundo da horta que viceja há alguns metros. A refeição se divide entre uma entrada bastante frugal, um prato principal e uma sobremesa. Poderia ser monótono, mas não foi. Cozinheiras simples, nada de chef ou chefetes, exibiram conhecimento e expertise em lidar com legumes e verduras. Por exemplo, um inhame, al dente, recheado de legumes delicadamente picados, à brunoise, azeite e molho de iogurte e ervas frescas surpreendeu pelo equilíbrio e sabor - o resultado é melhor do que se imagina. Segundo dia, ainda mais surpreendente, um chuchu em tiras cozido apenas no limão acompanhado de uns pontinhos de molho pesto reverenciaram não só o paladar, mas toda a natureza circundante de pinheiros e palmeiras. Terceiro dia, uma farofa molhada e vibrante de beterraba, boa demais, mesmo para quem não gosta de beterraba, juro! Os doces com açúcar bastante reduzido, às vezes menos doce até que as cenouras do almoço, foram pílulas para apenas adoçar o paladar. Compotas, doces caipiras, fitas, ralados, caldas finas a lembrar que o menos é o luxo de hoje e amanhã.
Mas uma aragem fria fazia nossos pelos eriçarem a cada vez que a mocinha descia para a senzala buscar uma garrafa de vinho pedida por algum de nós. Não nos lembrávamos de ter visto adega por lá. Imaginei que ficasse num quartinho fora da casa, próximo da capela, talvez. Ela descia e o rumor do vento nos enrodilhava, como se boquinhas habitassem um redemoinho. Espiamos e vimos que uma daquelas tábuas novinhas em folha era a porta da adega, construída no chão batido, com teto de taipa, quase sem restauro, é a parte dolorosamente original da fazenda.
DICA DA SEMANA
Filé de tomate
Tomate é um daquele ingredientes que servem para tudo, doce ou sal. Normalmente nos pratos com molho utilizamos picados, assim estimulamos a formação do caldo que servirá as nossas massas. Mas uma maneira diferente de fazê-lo, além de facilitar o trabalho, ainda incrementa o sabor. Pegue os tomates, lave-os e corte-os ao meio, retire apenas as sementes. Ajeite numa forma de forma que eles não se sobreponham, mas que também não fique folgado. Tempere com um fio de azeite, sal e ervas. Ponha para assar, até que a casca se solte sozinha, mas ainda íntegros. Daí você pode usar como se fosse uma lâmina. Numa lasanha, por exemplo, ele forma uma camada leve e saborosa. Numa pizza os tomates inteiros dão uma cobertura linda que só pede queijo parmesão e gratinar.
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