Coloquei um novo escritor em minha vida: Saul Bellow - e a relação está bastante instável. Não gostei dele, “pessoalmente” tampouco gostei de seus personagens, simplesmente acho o tema do que leio: americanos ricos, melhor, podres de ricos, um tanto sem charme. Só que Bellow não é um Fitzgerald, ele é menos afetado - e melhor. Daí resolvi engolir personagens que eu não entendo, padrões morais irritantes e a indisfarçável adoração ao dinheiro ao American Way of Life. E engoliria tudo outra vez, porque ele escreveu isso: “...os Estados Unidos corporativos, de alta tecnologia, sua cultura e seus entretenimentos, sua imprensa, seu sistema educacional, seus think tanks, sua política (...) sua democracia de massas e seu lamentável produto humano característico.”
E mais isso: “Nunca do ponto de vista material, populações tão grandes estiveram mais bem protegidas contra a fome e a doença. E essa liberação parcial da luta pela sobrevivência torna as pessoas ingênuas. Com isso quero dizer que as fantasias que elas querem ver realizadas não são contestadas”.
Estava com esse barulho todo ecoando na cabeça enquanto combinava detalhes de uma festa de aniversário, festa familiar, coisa pequena, íntima, não prometia surpresas. Ainda assim, preocupava minha irmã os gostos de cada um, o vegetarianismo de poucos, o tamanho da casa. Disse-lhe: pastel de carne jamais pode faltar, o de queijo também é bem-vindo. Enroladinho de linguiça e salsicha são a alegria das crianças, quibes e risoles parecem mais coisa de adultos, e a coxinha pode cortar: engorda demais. O sabor do bolo quem dita é a aniversariante e ela gosta é de clássicos, então: chocolate, recheado de chocolate, coberto por lascas de chocolate e alguns moranguinhos mergulhados no chocolate, assim temos garantido uma corzinha.
A festa foi também um pretexto para que a família conhecesse a nova casa de minha irmã, que está feliz da vida, podendo afirmar que agora tem um canto para chamar de seu. Tudo muito bem, tudo limpo, organizado, porteiro, varredores, grama aparada, casa decorada, crianças felizes, elogios, beijinhos, risinhos. E chega à porta uma criança não convidada, suja, cheirando a xixi, despenteada, cobiçando cada centímetro de salgadinho da mesa. Fui a primeira a oferecer um salgadinho, ele aceitou e pediu mais para levar para casa, ao que minha irmã prontamente aquiesceu, o menino se foi e continuamos nossa fantasia. Mas o menino voltou, trouxe com ele o irmão menor e dessa vez ele queria muito mais, queria algo que normalmente não estamos dispostos a aceitar: ele queria ser um de nós, participar da festa.
Ninguém ousou enxotá-los, eles ficaram, mas instalaram um desconforto espesso que se assemelhou a um bambolê a volta deles. Eram duas pequenas ilhas móveis de admoestação. Dois tribunaizinhos, igualmente desarranjados, acusando nossas futilidades. Nossos olhares se encontravam nas pontas dos dedos sujos daquelas crianças que tocavam todos os salgados da mesa. Eu contei: o maior comeu sozinho 15 enroladinhos de linguiça, numa ânsia de reserva que nos desacostumamos a ver.
Vi minha irmã brilhar num palco que há tempos não figuro, me desacostumei a invasão de minha privacidade, meu núcleo familiar é pequeno, meu bairro é tranquilo e se quero passar uma manhã lendo, por exemplo, Bellow, ouvindo, por exemplo, Criolo, como tinha feito ainda há pouco, ninguém irá me incomodar. O pior, para os mais incomodados, foi que os meninos não fizeram nenhuma falta de educação, eles se comportaram exatamente como crianças que são. E como tal, o maior deles reclamou: “Estou cheio de carne, tem pastel de queijo?!”
Foi então que as máscaras caíram, pensávamos estar a salvo das maledicências, pensávamos equivocadamente que, nutridos e amados, só pudéssemos doar amor. Minha irmã lhe trouxe o pastel, mas avisou que outros também queriam o de queijo, ele comeu tantos que nem sei. Sei que aqueles dedos sujos, escolhendo pastéis de queijo, foram as garras que rasgaram a fina pele de feridas mal cicatrizadas - e o pus jorrou.
DICA DA SEMANA
Cobertura para bolo
Você pode fazer uma cobertura bem simples e barata para cobrir um pequeno bolo. O suspiro, feito de clara de ovos e açúcar, é um dos jeitos mais baratos e elegantes de se cobrir um bolo, mas ele pode ser enriquecido, e a dica é adicionar um pouquinho de Malibu. Isso mesmo, o rum. Um suspiro bem feito deve obedecer uma sequência: coloca-se as claras para bater, quando começarem a espumar, a pitada de sal ou de cremor de tártaro. Com as claras já montadas, acrescentam-se duas colheres de sopa do rum Malibu, depois o açúcar aos poucos! Nada de jogar todo o açúcar de uma vez, isso mataria as claras. Daí é só esperar ele ficar bem firme.
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