O abacaxi nos redime


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Nossas fatias são suculentas, capazes de requisitar o jorro das papilas gustativas. Enfim, o nosso é mais gostoso
Nossas fatias são suculentas, capazes de requisitar o jorro das papilas gustativas. Enfim, o nosso é mais gostoso
Somos o povo do lado de baixo, somos o povo que andava de ponta cabeça, fomos os selvagens portadores de anomalias, meio mágicos, meio demônios, no entanto, sempre inferiores. Assim nos enxergaram os europeus durante décadas, e nós, a fim de representarmos da melhor maneira possível o papel que nos destinaram, até hoje relutamos com nossos complexos. Mas desde sempre despertamos neles algumas invejas, ainda que inconfessas, e um dos nossos tesouros são nossas frutas. É verdade: eles têm as frutas vermelhas ou do bosque, mas, é só. A gente? Bem, não dá para enumerar. E quanto ao gosto, pode-se dizer que é o do sol. Não arriscaria dizer qual é nossa fruta preferida, mas, para os europeus, o abacaxi sempre esteve em alta conta.
 
Dentre as crônicas de viajantes, aqueles homens, escritores e desbravadores que aportaram aqui à época do descobrimento, Jean de Léry considerava o ananás muito doce, com fragrância penetrante de framboesa e o mais saboroso fruto da América. Note-se que do século XVI até o século XVIII, a palavra abacaxi ainda não existia, mas tão somente ananás, que muito provavelmente teve a sua origem no Brasil. Já ouvi dizer que, embora o abacaxi tenha aparecido por aqui e tenha rapidamente se espalhado pelo mundo (em 1518 ele já estava plantado no Oriente), não teria esse solo parido o melhor exemplar, mas o Tahiti. Ainda bem, posso discordar com conhecimento de causa. 
 
O abacaxi do Tahiti tem sobre si um belo marketing e uma cor dourada que orna muito bem com a sua coroa. No entanto, pequeno e de acidez ainda mais acentuada, não é capaz de ser mais gostoso que nosso abacaxi pérola amadurecido conforme a sua vontade. Além disso, as fatias não são suculentas como as nossas, capazes de requisitar o jorro das papilas gustativas. Enfim, o nosso é mais gostoso. 
 
O maior desafio dos exploradores era conseguir levar a fruta fresca para ser saboreada pelos seus reis ou financiadores. Um deles disse: “É impossível trazê-la para a França, a não ser em forma de compota, pois ela, quando madura, não se conserva incorrupta por muito tempo”. Por isso, a empreitada para se obter sucesso no cultivo do abacaxi, na Europa foi uma saga de gente renitente. Um dos mais notáveis e bem-sucedidos esforços foi feito pelo grande jardineiro Jean-Babtiste de La Quintinie, mais conhecido como o jardineiro do Rei Luís XIV. Quanto trabalho foi empreendido pode-se ler no livro de jardinagem publicado pelo senhor de La Quintinie. Quanto a Luís XIV, apenas parecia simples e de direito dele que o rei tivesse na mesa o rei das frutas. Outro exemplo foi John Rose, o jardineiro real de outro soberano, Carlos II, que recebe das mãos de Rose o primeiro abacaxi cultivado na Inglaterra. Contudo, o abacaxi foi se transformando numa lenda e febre pela Europa, virou símbolo de hospitalidade e até de status, por isso, suas reproduções em pedras enfeitavam portões, muros e telhados.
 
Em tempos modernos, nos faltou um Paul Gauguin, colorido e sensual para melhor publicidade de nosso éden. Faltou-nos de igual maneira abrir os olhos para, por exemplo, apreciar Jean-Baptiste Debret e suas pinceladas a cinzelar lindas negras, suculentos cajus, exóticos abacaxis. Sim, ele fala de quintais, roças, frutas e tachos, coisas assim: de pura arte. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Maracujás doces
 
Duas são as dicas para se comprar um bom maracujá doce. Primeiro chacoalhe a fruta perto do ouvido para saber se a polpa está solta, o que é desejável. A outra é: se a casca estiver brilhando está em bom estado de conservação.
 
Qualquer receita que se faça com o azedo dará certo com o doce, só que melhor, não será preciso tanto açúcar para se corrigir o azedo. O mesmo vale para sucos. Imagino apenas que a mousse fique melhor com o azedo, uma vez que a receita para adoçar é a lata de leite condensado e nesse caso não dá para reduzir o açúcar

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