Temo estar me repetindo, mas meu espírito está de tal forma professante da fé no poder da Natureza que realmente não consigo me desvencilhar - e qualquer escape, se torna apenas um escape, coisa sem importância. A Natureza se mistura com a minha identidade, a agressividade das cidades me põe um peixe no leito do estômago, que apodrece lentamente. Claro, nem sempre é assim.
William Wordsworth, poeta inglês do século XVIII, foi tremendamente ridicularizado porque apostava no poder da Natureza. Compunha poemas simples, diziam-lhe trovinhas, sobre nuvens, pássaros, flores. Mas ele foi inquebrantável, uma formiguinha que deu de ombros a todos os insultos porque estava seguro de si.
“Natureza tem tal poder de influenciar a mente que se encontra em nós, de imprimir com quietude e beleza, e nutrir com pensamentos elevados, que nem as más línguas, os julgamentos apressados, nem o escárnio de homens egoístas, nem os cumprimentos desprovidos de gentileza, nem todo o entediante relacionar-se da vida diária, jamais nos dominarão, nem perturbarão nossa fé risonha de que tudo o que contemplamos está cheio de bênçãos”. Era assim que o poeta respondia às ofensas sofridas, e isso foi antes de 1800! O que diria hoje, o poeta?
Podemos expandir a noção da nossa própria natureza. A contemplação da Natureza tem seus efeitos restabelecedores, acho que provados cientificamente, mas cultivar o sentido de pertencimento vai além do belo canto do rouxinol. A natureza humana é indissociável da sua cultura, e isso nos diferencia de simples animais. Cozinhar é nossa herança mais antiga, nosso primeiro traço humano cultural, assim tem entendido alguns cientistas.
O que me trouxe até aqui é Michael Pollan, já cansei de citá-lo por aqui, pelos livros, mas agora tem em vídeo. A Netflix fez um bom documentário sobre o livro: Cozinhar. Não preciso dizer o quanto o livro é superior, mas a série é um bom aperitivo.
Quando cozinhamos, necessariamente dizemos a nós e aos outros de onde viemos, como somos, quem são nossos pais e avós. Quando repetimos receitas e gostos nos aproximamos de nossas origens - e isso nos consola da nossa inescrutável solidão.
Vemos com o próprio Pollan, que se enche de orgulho ao ver-se manejando um porco inteiro numa churrasqueira, o quanto isso está ligado ao exercício de ser macho. Pode ser com a avó aborígene que põe o neto na fumaça da coivara para defumá-lo, de leve, apenas para que o neto entre em contato com a força e o poder do fogo que cura, que fortalece. São as santas loucuras que preservam nossa sanidade.
Quanto a cozinhar, nem pensem em resultados - é o exercício que une, é o simples dizer: fui eu que fiz, ou ainda: o jantar está na mesa, venham!
Dica da semanaPanqueca
A gente pode fazer uma panqueca, ou um crepe ou uma tapioca, que é uma coisa deliciosa. Pode-se comprar um pão folha e rechear e enrolar. Se quiser o lanche torradinho, é só untar uma frigideira e deixar dar aquela sapecada.
Mas a gente pode fazer uma “panqueca” sem carboidrato utilizando o ovo como massa. É simples, podem tentar! Para isso, siga o procedimento da omelete. Bata levemente dois ovos, por exemplo, esquente bem a frigideira, untada com azeite, ou óleo ou manteiga. Jogue os ovos e, à medida que as beiradas forem fritando, vá girando a frigideira, retirando do centro e jogando para as beiradas.
Detalhe: tem que haver compatibilidade entre o tamanho da frigideira e a quantidade de ovos. E deve-se dourar dos dois lados, quando pronto de um lado, com a espátula, vira a omelete e doura do outro. Feito isso, joga-se o recheio, enrola na frigideira mesmo, passa para o prato e corta-se em diagonal.
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