A história é até antiga, do ano passado, mas os reflexos não param de ecoar e, em minhas andanças por Minas, acabei ouvindo, de novo, a parte mais saborosa da história: a fofoca. Mas antes disso, devo situá-los.
Existem prêmios franceses para todo tipo de comida e bebida, assim eu penso. Um desses concursos é justamente para queijos, o Mondial du Fromage de Tours. Tours é uma cidade francesa ligada ao Loire, onde anualmente acontece esse concurso. Com tantas categorias de queijos que, para nós brasileiros, seria incompreensível. E no ano de 2015, um queijo brasileiro ganhou a medalha de prata, foi considerado o segundo melhor queijo do mundo na categoria: Massa prensada não cozida de leite cru de vaca. Onde nada menos de 600 queijos de 23 países diferentes concorreram. O queijo? Claro, um Canastra de São Roque de Minas.
O que me contaram em off é que não foi o produtor quem levou os queijos para o concurso, mas um amigo. Segundo me disseram, ele nem sabia que seu queijo seria assim, tão seriamente julgado. Mineiro por excelência, é certo que ele jamais desconfiou da qualidade de seus produtos, tampouco o quanto a tradicional receita dessa joia nacional é boa, mas a competição com os franceses, de fato, assusta.
Esses queijos saíram do Brasil dentro de malas, mas com cartas políticas de recomendação e procedência do produto, que é produzido pela mesma família há mais de 200 anos, receita herdada dos primeiros portugueses que colonizaram aquela região da Canastra. Quem se submete a subir na principal serra daquele lugar, a Canastra, é presenteado com uma vista deslumbrante e ainda vê divertidamente nascer o Cerrado, vê claramente a transição entre a mata de baixo e o Cerrado que começa por ali, onde também está o início da principal calha do rio São Francisco.
No ponto mais alto pode-se ver uma construção do ano de 1700, me corrijam se estiver enganada, rudimentos de um curral de pedras, para onde o gado era levado uma parte do ano. Hoje: ninguém. Apenas um pé de vento habita dia e noite aquele lugar. Foi por ali que nasceu a receita do nosso querido queijo Canastra, a expertise dos portugueses aliada a sobra do leite do gado Caracu. Na parte baixa, uma boa forração ainda alimenta o gado - no caso do queijo vencedor, a mesma raça Caracu. Mas no alto, percebe-se a existência do capim gordura, me pergunto porque não investir nesse capim capaz de induzir um leite ainda mais gorduroso?
A história do queijo não para por aqui. As mesmas pessoas envolvidas nessa diáspora mineira pediram que um especialista em curar queijos franceses fizesse um experimento com o nosso. O processo está registrado em vídeo - e quanto orgulho isso nos dá.
Capim, como é conhecido o rapaz de 28 anos e produtor do queijo vencedor, diz, bem-humorado, que esse acontecimento empolga porque é como se o Juventus da Mooca fosse para a França e batesse o Paris Saint-Germain. Sim, “nós pobres” adoramos essas exceções. Ele também credita a vitória a dois fatores, a água pura da Canastra e o fato de que, como seu queijo foi produzido no verão, havia pasto abundante e o gado não comeu silagem. Os franceses reconhecem o gosto da silagem no queijo e jamais votariam num queijo assim. Pois bem, aquelas sortes da vida que perseguem quem cedo madruga e ri e crê e faz.
Ps.: O produtor se chama Guilherme Ferreira e para comprar diretamente: sac@capimcanastra.com.br.
Dica da semana
Ovo
Um jeito diferente e muito gostoso de se fazer um ovo. Ele é meio assado, meio cozido, feito no micro-ondas.
Coloque cuidadosamente o ovo numa tigelinha pequena, o ovo não pode se esparramar. Espete a gema com um garfo, com cuidado para não estourar. Tempere com sal e pimenta do reino, um pouquinho de parmesão e 1 colher de sopa de creme de leite ou leite mesmo.
No meu aparelho deixo 40 segundos. Faça o teste no seu. A clara fica durinha, a gema mole e o sabor é surpreendente.
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