Fernanda Torres disse dia desses que o duro de escrever para um caderno de cultura é ter de falar sobre cultura em momentos tão duros. Posso parafraseá-la com o meu dever de falar sobre comida. Bem poderia me socorrer da essencialidade evidente da comida, mas daí eu estaria a falar de nutrição - e essa não é a minha praia. O meu interesse é na comida que entra pelos sete buracos da cabeça. De qualquer forma, gostaria de dizer que nenhuma polarização é frutífera: se me cerco dos meus pares, sim, terei a reafirmação prazerosa das minhas ideias - e a certeza de ficar mais burra.
De uma hora para outra, voltamos a conviver com as palavras direita e esquerda, plenas de significados. Veio-me à memória romances, poesias, gestos de um mundo que diziam morto e enterrado. Parecia uma tela em sépia: um presidente negro americano desembarcando em Cuba e a visão do Crocodilo verde (a ilha de Cuba tem esse formato) me arrebatou. Voltei à ilha, voei para a belíssima casa do escritor Hemingway, os enormes caranguejos atravessando uma avenida; uma gente fantástica e música por todos os lados; um sanduíche horrível que me matou a fome; os mojitos, que meu marido faz melhor, mas jamais serão superados; a lagosta fresca na manteiga, essa se sustenta sem romantismo.
Acho que a reportagem da Folha sobre Cuba, animada por esse espírito, trouxe uma matéria muito interessante: sobre a comida dos tempos comunistas do leste europeu. Alguns restaurantes de Varsóvia estão a servir a comida saudosista, que atrai também os descolados, coisa meio cult. As sugestões são baratas e nutritivas: língua de boi com macarrão ao molho de raiz forte. O tradicional goulash - esse eu já experimentei e não gostei. É um cozido de carne, pepino (acho que está aí o problema: pepino quente), pimentão e tomates. Omelete de vegetais e crepe de queijo quark (queijo ácido com baixo teor de gordura).
A reportagem elegeu a sopa de tomates frescos com macarrão a melhor opção, o prato se chama pomidorowa e é nosso espaguete ao sugo às avessas. Tem também filé de porco à milanesa com cenoura e repolho, purê de beterraba e charutos de repolho com purê de batatas, esse, aliás, um clássico das vacas magras.
Esses restaurantes de Varsóvia praticam um serviço do tipo bandejão: o mais barato e simplificado possível. A lógica do tudo igual para que todos se sintam igualmente bem ou mal.
O espaço é curto, mas as histórias são tantas... me lembro do Milan Kundera dizer no seu A vida está em outro lugar que o triste do comunismo era tirar as calças diante de uma moça e mostrar sempre a mesma horrorosa cueca. Vê-se, ninguém se importaria mesmo com um goulashzinho.
DICA DA SEMANA
Legumes chamuscados 2
Dando sequência aos legumes chamuscados, segue mais um dos eleitos preferidos: Abobrinha.
O melhor é usar a italiana, mais fina e mais novinha. A caipira tem água e sementes demais e a menina, aquela que tem uma cabeça grande, é compacta. Corte-as de comprido, não precisa retirar as sementes. Unte com óleo e sal. Coloque direto na grelha e deixe por uns 15 minutos. Vai depender da espessura delas. Detalhe: Para que se forme aquelas listras lindas, deixe a abobrinha quieta para que a marca fique. Se ficar mexendo para lá e para cá, a beleza ficará comprometida.
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