A senhora olha desconfiada a empanada preta a sua frente e sente que ela lhe grita amargor. A senhora parece pressentir os carvões a serem destruídos dente a dente e o pó a lhe invadir a boca, uma boca a tornar-se preta. Cara encrespada, ela empurra o pratinho de ágata branca e borda azul na direção da atendente e diz: eu não como isso de jeito nenhum, quero uma empanada branca. A atendente, bastante treinada para essa ocasião, inicia o discurso: minha senhora, essa empanada não está amarga, ela fica assim, preta, porque é assada diretamente sobre a pedra do forno, que deve estar a “trocentos” graus. Veja como só em determinados pontos ela fica assim, preta, mas o sabor é excelente. A chef já explicou isso no blog várias vezes.
Várias são as coisas que agrupam ou separam as pessoas, adoramos dizer que o mundo se divide entre pessoas que gostam ou desgostam de alguma coisa, fazemos isso todas as vezes que o gosto contrário do nosso nos é simplesmente incompreensível. É assim com coisas brancas e coisas morenas ou torradas. Quem pede pão branco na padaria pode mudar tudo na vida, mas jamais vai pedir um pãozinho moreno - e vice e versa. Eu sou da turma morena e/ou torrada mesmo, por isso logo fiz cara de “você não serve para sentar comigo” pedindo uma empanada branca, eca...
Voilà, estávamos na La Guapa bar/café da Paola Carosella, a argentina que participa como jurada do Master Chef. As empanadas são ótimas, uma delas inclusive, a cremosinha, ganhou prêmio de melhor empanada de São Paulo - e eu fui nela. Recheio de espinafre e queijo. Muito boa, mas fiquei com tanta inveja da empanada do meu lado, de carne - bem feito para mim -, pra que inventar...
Mas de fato a massa é espetacular, dourada - dourada, não, vá lá: preta -, bordas crocantes: toda viva e bronzeada. Tive vontade de proclamar em alto e bom som que queria a minha bem passada. E de fato o preto não amarga, só enfeita.
Bem, enfim, a senhora da empanada branca acabou por comer e adorar, lambeu os beiços de 65 anos, conforme ela fez questão de afirmar, que em 65 anos jamais comera algo assim dessa cor, embora tenha retirado quase toda a casca, segundo ela: “melhor evitar, né?”. Comoveu-se por ter tido a “coragem” de colocar aquilo na boca e que ainda bem que fora tão corajosa... E a minha empanada revirando no estômago, não por culpa da Paola, coitada, mas da bobeira alheia: estamos bobos, mas os paulistanos estão piores.
Mas, se passarem por lá, eu fui na La Guapa que fica na Livraria da Vila, da rua Lorena. Além das empanadas, deixem barriga para o sorvete de doce de leite, transcendental como se fosse feito à base branca, mas não. Segundo me informou a atendente, aquela de paciência infinita, o sorvete é só leite, açúcar sem qualquer estabilizante. São três dias gelando e batendo o danado.
E também não façam o papelão de pedir empanadas brancas - vocês já sabem e podem esnobar conhecimento.
DICA DA SEMANA
Sal
A dica é para marinadas.Não se coloca o sal na marinada das carnes porque ele as desidrata. Isso vale para longas marinadas, de dia para outro. Quando se optar por pouco tempo, tipo 40 minutos, daí pode. É o caso do peito de frango, por exemplo, que após uma rápida marinada, melhora bastante.
Outra dica, se vocês vão fazer um hambúrguer em casa é bom saber que o sal na carne só vai por cima e depois do hambúrguer pronto. A dica é da Rita Lobo e é incrível a diferença. Assim a carne não desidrata e o hambúrguer não achata nem seca.
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