Ando as voltas com o cristianismo, testando a máxima de que tudo o que somos, pensamos ou fazemos devemos às ideias cristãs e que estudar nossa cultura é o mesmo que estudar o cristianismo. E me deparo justamente com algo que normalmente empaco na resposta. Afora a questão de fé, por mais relevante que seja, nem sempre é suficiente para a compreensão daquele que não tem fé.
Quarta-feira de Cinzas, estávamos eu e minha filha em Patrocínio Paulista, cidade que adoro, porque claro, amo alguns moradores de lá, Emerenciana, particularmente. Ela me acostumou mal: a mesa sempre posta, uma toalha de dia a dia, que mais me lembra festa, e uma variedade de comida boa que regime nenhum chega aos pés - é chegar e comer para valer, nunca entendi como ela adivinha a equação entre amigos que chegam o tempo todo e comida sempre suficiente. Antes de adentrar ao casarão de portas abertas, antes de estar debaixo do pé direito alto, antes que meus pés ressoassem no assoalho, antes de ver o oratório valioso com que todas as crianças brincaram, eu já ansiava pelo bolo “de nada” da Dalva, na casa de Patrocínio Paulista.
Mas enfim, Quarta-feira de Cinzas e as crianças na mesa da cozinha, diante da carne de panela, discutiam se podiam ou não comê-la e que importância isso teria. Claro, aquelas que resolveram comer se saíram perfeitamente bem com as máximas de que a caridade, o amor ao próximo são coisas mais importantes que um naco indevido de carne. Mas uma delas resistiu, não sabendo exatamente porque, mas sentindo algo mais forte que a vontade, mais forte que o próprio sentimento do amor ao próximo, algo de sacrificial que certamente lhe recompensaria a falta daquela deliciosa carne de panela. Bem sei, eu a comi.
Pois então, a carne é uma das primeiras alianças entre os cristãos. Jesus Cristo, tido como agitador, na mira já das autoridades de Israel, cometeu seu ato tresloucado que parece ter sido o argumento mais forte na sua condenação: diante do Templo de Jerusalém ele derruba as bancas dos vendedores de animais para sacrifício aos deuses. Duzentos e cinquenta anos depois, no auge da perseguição aos cristãos, o imperador romano Décio ordena que todos os cidadãos sacrifiquem e/ou comam carne consagrada, alguns cristãos resistiram até a tortura e morte.
Ou seja, pode ser apenas um símbolo, mas a vida nos mostra que os símbolos muitas vezes são mais fortes que o gérmen. Mais de dois mil anos depois nos encontramos a volta de uma mesa discutindo a importância de algo que, de fato, parece banal. Mas não é, porque anima a fé e é capaz de fazer chegar até nós o sopro do homem ou do Messias que tudo disse sobre nós.
DICA DA SEMANA
Arroz
Isso é receita para quem gosta de inventar, de perfumar. Trata-se de um arroz indiano feito por uma tal de Meeta, uma indiana que chegou ao Brasil e foi responsável pela paixão de Nina Horta por comida indiana.
Derreta cem gramas de manteiga na panela de pressão e junte quatro cravos da Índia, uma folha de louro, uma canela em pau, seis grãos de pimenta do reino. Misture dois copos de arroz bem lavado, escorrido e seco. Acrescente água fervente até cobrir o arroz, um dedo acima. Tampe e quando pegar pressão deixe cozinhar por cinco minutos. Desligue, não abra até acabar a pressão naturalmente.
Faça tudo bem contadinho, os temperos indianos são contados assim, às unidades. Quem usa cravo da Índia bem sabe que um ou dois a mais podem pôr a receita a perder. Esse arroz é perfeito para acompanhar pratos que levem curry no molho.
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