Cheiro e a memória


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A experiência de vida de cada um, faz do cheiro algo particular que soa bom, ruim ou insuportável, independentemente de ser “cheiroso” ou “fedido”
A experiência de vida de cada um, faz do cheiro algo particular que soa bom, ruim ou insuportável, independentemente de ser “cheiroso” ou “fedido”
No mundo dos leigos, a definição dos cheiros não está afeita ao mundo dos conceitos, mas ao das exemplificações - cheiro não se explica, se plagia. É vapor que passeia pela nossa cadeia de exemplos, lembranças e sentimentos. Porque a gente relaciona o cheiro experimentado com o banco de dados que guardamos na memória. Partimos do pressuposto que as pessoas provenientes de uma mesma região tenham um banco parecido de informação. Isso, em parte, é verdade, mas há a experiência de vida de cada um, e essa é coisa exclusiva que faz do cheiro algo particular que soa bom, ruim, ótimo ou insuportável, independentemente de ser “cheiroso” ou “fedido”. Pois bem, que cheiro tem goiaba? Para mim, o mesmo que o do maracujá. Quando tem goiaba madura na fruteira e a casa fica fechada o dia todo, quando abro a porta não saberia dizer se tratar de goiaba ou maracujá. E ambos são do tipo indiscreto: olha eu aqui! 
 
Comecei essa história toda porque, lendo o ótimo livro sobre frutas da Jane Grigson, no capítulo das goiabas me deparo com uma inglesa tentando falar do cheiro das goiabas em Paris. Pareceu-me que alguém estava se apropriando indevidamente de um cheiro que é muito meu, brasileiro, roceiro. E mais, a descrição sofisticada colocava a fruta em trajes de gala - tão inapropriados a nossa goiaba. E mais, confrontou a minha realidade de forma cômica até, a mesma fruta, o mesmo cheiro, capaz de evocações tão diferentes. Vou chamar de 1 a minha descrição e de 2 a descrição da autora Jane.
 
Descrição 1 - Tenho aos pés o chão do centro da cidade, os barulhos, as pessoas integram a monotonia que exige o dia a dia. Parece que ontem mesmo era aquela mesma mulher e aquela mesma criança que estavam ali. Sigo, antes de dobrar a esquina da Marechal Deodoro, busco mentalmente a Cinelândia e nem cheiro dela, ou da livraria Martins, que tantas lembranças animam. Mas algo familiar se insinua, é a chaminé do meu cérebro que capta e eu as adivinho antes de vê-las: é tempo de goiaba. Sei que as encontrarei molhadas, empilhadas dentro de uma carriola, uma ou duas estarão cortadas ao meio. Não sei se a intenção é o choque entre a cor goiaba do interior e o verde da casca, ou se é mostrar como elas estão apetitosas. Um rapaz brasileiro, possivelmente queimado pelo sol, pegará uma mini balança, pesará as goiabas e dirá para completar um quilo certo. Vou pagar, e meu troco sairá da pochete surrada que ele leva na cintura. 
 
Descrição 2 - “Se alguma vez for a Paris, e tiver um tempo livre, faça uma excursão pela cidade. Não vai lhe custar nada. Caminhe até o departamento de frutas da Fauchon, numa esquina da Place Madeleine, e sinta o cheiro no ar. E então, aspire de novo e relaxe no ar perfumado e exótico, contemplando as frutas expostas com tanta habilidade. Acho que aquele ar fragrante de goiaba, maracujá e melão tem o cheiro que o jardim do Éden deve ter tido (...). As pessoas têm tentado descrever o perfume da goiaba desde o século XVI: a fruta guanaba, desconhecida para nós, é em certa medida parecida com um marmelo”.
 
Para eles a surpresa, o aroma penetrante inexplicável, comparando-a ao marmelo, ao morango, ao damasco. Para nós, o fundo do quintal, o sítio do avô, o doce no tacho, a compota de meias luas rosadas a pedir uma colher de requeijão ou o talho de queijo mineiro. Ah! E a Place Madeleine é linda mesmo, só um louco não veria isso. Mas não sei não, aquela carriola com frutas verdes empilhadas confessa segredos que o meu coração entende direitinho. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Bolo
 
Você pode fazer um bolo com pouquíssima farinha, às vezes até sem nada de farinha, apostando apenas no ovo. Uma receita simples assim: 6 gemas, 6 claras, 300 gr de chocolate em pó, 300 gr de manteiga sem sal, 300 gr de açúcar refinado, 30 gr de farinha de rosca. Dá muito certo, o bolo fica a cara do chocólatra. Mas é preciso ter cuidado. As claras têm que estar em perfeito estado de neve. Bate-se a manteiga com o açúcar até que ela infle e fique branquinha. Acrescenta-se as gemas uma a uma, sem parar de bater. E o chocolate e a farinha devem ser peneirados à massa e incorporados com cuidado. 
 
A principal dica é que o forno deve ser ligado pelo menos uns 15 minutos antes para que a temperatura esteja confiável em 180 graus. Como não tem farinha de trigo, nem fermento, a ação deve ser rápida entre terminar de bater e se colocar para assar.

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