Quem é a cozinheira?


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“Cozinheira não é quem faz um suflê maravilhoso, é aquela que sabe o  que fazer para o jantar”. Essa frase me desarma, porque esse tipo aí é extinção
“Cozinheira não é quem faz um suflê maravilhoso, é aquela que sabe o que fazer para o jantar”. Essa frase me desarma, porque esse tipo aí é extinção
Se o Jiquitaia brilhou ano passado como sendo um dos destaques na gastronomia, com comida relevante, na intelectualidade, quem marcou presença mais uma vez foi a Nina Horta. Embora tenha perdido seu espaço na Folha, fato que não deixarei de lamentar, ela seguiu com a vida e publicou um belo livro: O frango ensopado da minha mãe, seu segundo, parido muito tempo depois do primeiro, Não é sopa. Aquele é uma compilação de crônicas já escritas, acho que já publicadas na Folha, mas reunidas de tal modo que façam um novo sentido dentro de um contexto harmonioso que cheire a romance.
 
Tenho um ritual com livros novos, antes de começar a ler gosto de ficar passando a mão, cheirando, buscando absorver da bola de cristal o meu destino. Procuro mentalmente a cara do escritor, o inquiro sobre o que afinal se tratam todas essas letras, aprisionadas ainda na virgindade da lombada intacta. Depois começo pelas beiradas, orelhas, contracapa, foto da capa... E foi então que parei, encontrei sabedoria suficiente na contracapa. Era urgente que eu não abrisse o livro e me virasse com o que tinha lido: “Cozinheira não é quem faz um suflê maravilhoso, é aquela que sabe o que fazer para o jantar”.
 
Ela me desarmou e me entristeceu, porque esse tipo aí é extinção, é ladeira abaixo. Todos nós, caipiras do interior, conhecemos aquela mulher ou, porque não, aquele homem que entra na cozinha e, não importando o que tenha na geladeira ou despensa, consegue em minutos oferecer algo absolutamente suficiente. Parece fácil, a pessoa não interrompe o papo, não faz pilha de louça suja, não gasta fortuna, nem conhece ingredientes caros. Eles carregam consigo o dom que faz transformar nutrientes em comida - é a cara da generosidade. Eles sabem bem dos seus encantos, mas os expõe em fogo brando, são silenciosos. 
 
Nada contra os novos efusivos cozinheiros, os mercados caros, amigos e vinhos refinados, receituário de chef. Isso também é bom demais, mas é Carnaval - como diria Rita Lee: “Amor é Bossa Nova”. Cozinhar todo dia é aceitar a natureza das coisas, a limitação que cada vida impõe ao mercado, à feira e ainda assim produzir algo novo. É abrir a geladeira e deparar-se com uma cenoura, uma abobrinha em meia vida e não desistir delas. São as tortas de legumes, os bolinhos de arroz, os croquetes de não sei o que, as pizzas de sardinha, de carne moída, os pãezinhos recheados de sobras. E não é raro gostarmos mais das emendas que dos sonetos. Minha sogra diz que quem cozinha com paixão faz canja com um pé de galinha!
 
Não sou exatamente assim, essas mulheres aí são meu farol. Quando encosto a barriga no fogão invoco uma ancestralidade que não conheci, mas carrego, senão, por qual motivo essa chamazinha teimaria tanto em se apagar...?
 
 
DICA DA SEMANA
 
Abobrinha recheada
 
As abobrinhas estão muito gostosas e baratas, portanto perfeitas para o risco de uma receita um pouco mais difícil. As abobrinhas recheadas, um clássico da culinária maravilhosa árabe, é daquelas receitas que todo mundo gosta, inclusive crianças. Para um toque de originalidade, arrisque, use a pimenta síria e uma pitada de canela. 
 
Mas vamos às dicas: primeiro, a proporção entre arroz e carne moída. Sempre o dobro de arroz. Deve-se lavar o arroz, escorrê-lo e colocar de molho de novo, assim ele cozinhará no mesmo tempo que a carne. 
 
Outra dica é a salsinha, um maço inteiro, inclusive com o talo. Misturar tudo muito bem com as mãos. 
 
As abobrinhas cortadas em tubos ficam bonitas e podem tanto ser assadas, como meio fritas numa frigideira de fundo grosso. E não tenha miséria na hora de rechear, deixe ficar acima dos pedaços de abobrinha. 

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