O amigo da minha filha disse: “ Júlia, tem coisa de comida lá no museu da Língua Portuguesa, avisa lá sua mãe”. Ótimo, fim de ano é sempre bom dar uma voltinha por uma São Paulo amena, menos pretenciosa, e visualizar, pelos buracos deixados pela saída de muitos veículos, uma outra cidade que se esconde atrás da pressa. Olhei na internet e descobri animada que se tratava de uma exposição inédita, na pessoa e no modelo. Câmara Cascudo estava sendo retratado no museu de forma iterativa e diversificada.
Já falei com vocês aqui sobre o pesquisador, advogado, escritor Luís da Câmara Cascudo, mas por certo bem pouco sabemos sobre ele, o homem foi um verdadeiro verbete sobre a culinária brasileira. E pode-se discordar dele, de Gilberto Freire, mas antes é preciso conhecê-los. E oportunidades assim não se perde. Achei que terça-feira seria um perfeito dia para museu, pela manhã, bem cedo primeiro horário. Acerto o cinema da tarde, de modo que nada saia corrido. Enquanto isso, procuro aproveitar a segunda, mas a calmaria que esperava não vem: O esperado trânsito tranquilo não aparece. Alguém me diz que a alta do dólar impediu os ricos de viajarem, outro me fala que só na véspera de Natal chegaria a paz, por certo junto com Jesus: “Paz aos homens de boa fé”.
Quando então recebo a mensagem da minha filha dizendo que o museu pegou fogo...
O fogo escolheu o dia certo, segunda-feira, museu fechado, mas o local errado: Pela segunda vez a estação Júlio Prestes é destruída pelo fogo - e mais um tanto de memórias vira fumaça. Dentro do museu, os fantasmas dos homens e a materialidade de obras que de alguma forma utilizaram a linguagem como expressão. Leio no jornal que todo o acervo de Câmara Cascudo utilizado para a exposição, intitulada “O tempo e eu e você”, está bem a salvo no museu do Rio Grande do Norte, aqui só cópias e material digital. Fico sabendo também que a apólice de seguro é de R$ 45 milhões e que tudo voltará ao normal, não fosse por um detalhe, um homem, um bombeiro que enxergou na expressão valor igual a vida e foi capaz de morrer por ela.
Dizem que esse não foi um ano bom para a gastronomia, era esse o meu tema, antes do incêndio que me sensibilizou e precisou ser expresso aqui. Farei o balanço mais tarde. Câmara Cascudo dizia que ninguém está sozinho quando pensa. Acrescentaria que se pode cozinhar também para a boa solidão, embora eu duvide que alguém fique sozinho diante de um bom cozido.
Casas e panelas cheias em 2016!
DICA DA SEMANA
Baião
Dia desses comi um baião vegetariano de cair o queixo. O difícil do baião ou do nosso famoso mexidinho é manter a umidade, ele logo endurece. Mas esse se manteve molhadinho o tempo inteiro, o segredo, acho que duas coisas: A primeira, o feijão manteiga. Normalmente usamos o carioquinha, bem maior.
O feijão manteiguinha me pareceu mais untuoso e como é muito menor ele se mistura de forma delicada ao arroz e ao restante dos ingredientes. Fica uma sensação mais gostosa na boca, uma textura mais delicada.
A segunda coisa, o quiabo, essa é bem óbvia. Pedaços pequenos de quiabo, inclusive as duas pontas foram adicionadas ao baião. Um quiabo basta, ele será capaz de dar sabor e mais umidade. Cozinhe o quiabo em água fervente, rapidamente, depois coloque imediatamente na água gelada, corte em rodelas e junte ao mexido.
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