Todo mundo precisa de dinheiro, toda instituição se fortalece à medida que tem dinheiro/poder para expor e vender bem os seus ideais, sejam eles puros ou pasteurizados. Um desses ideais é o Slow Food, que se define como um movimento ecogastronômico, sem fins lucrativos, nascido para questionar o fast food e a fast life. Qualquer de vocês que tenham lido três linhas minhas, sabem o quanto sou admiradora desse movimento. Mas senti um leve azedume quando descobri a aliança entre a cadeia alimentar Eataly e o Slow Food. E azedume por quase nada: afinal, ambos são italianos e amigos e pareciam comungar da mesma mão.
Aqui precisa um parêntese: O Eataly abriu a sua primeira unidade brasileira este ano, eles são uma cadeia de comida italiana que tem por conceito oferecer uma boa comida italiana por preço acessível e que atenda, conforme eles mesmos disseram: “da recepcionista ao presidente da empresa”. O local oferece, dentro do mesmo prédio, 7 restaurantes pequenos, açougues, rotisserie, lanchonete e mercado. A ideia é a seguinte: se você quer comer lá com requinte tem jeito. Se você quer apenas um lanche, também tem, se você quer levar uma marmita para casa, eles providenciam, e se você quiser fazer a sua comida em casa também é possível, eles oferecem gôndolas e mais gôndolas de ótimos produtos italianos. Até aí tudo bem, trata-se de um megainvestimento, coisa de R$ 40 milhões, ainda assim se apoiam no movimento político/alimentar Slow Food que tem, dentre os seus ideais, talvez o mais importante deles, privilegiar o fornecedor local.
Voltando ao azedume inicial: achei estranho quando um dos proprietários da rede brasileira, ao ser questionado sobre os produtos locais que eles utilizariam, comentou da farinha do Pará, do queijo de Minas. Mas que o tomate seria importado da Itália. Desde então fiquei a matutar como conciliar a teoria do Slow Food com a importação de quilos e quilos de tomates por uma rede alimentícia que pode até servir boa comida, mas não a excelência gastronômica. Fiquei a pensar, será que todos os excelentes restaurantes de São Paulo importam tomates? Será que nenhum dos ótimos molhos de tomate que já comi por aqui e ali foram feitos com tomates rasteiros brasileiros? Sinceramente duvidei e duvido. Não posso falar do que não conheço, mas do que experimentei, sim. Falarei com a habilidade de quem separa espinhos de peixe dentro da boca: não comi, nas regiões italianas da Toscana e Ligúria, tomates ou molho de tomates que fossem melhores do que os nossos bons molhos. Então classifiquei essa exigência do Eataly como indecência mesmo.
Eis que vem a público que a fome do Eataly (Brasil) esbarrou na dieta espartana do Slow Food. O relacionamento não vai nada bem e uma carta aberta ao público foi divulgada pelo movimento, condenando práticas comerciais ainda utilizadas por alguns empresários brasileiros, tais como não pagar funcionários, nem os pequenos fornecedores de ingredientes brasileiros, aqueles que deveriam ser os prestigiados da cadeia. Uma vergonha só! Por ora, a pressão surtiu os efeitos desejados: funcionários e fornecedores começaram a ser pagos. E agora a minha dúvida é: Qual será a diferença entre uma montanha de tomates brasileiros e outra de tomates italianos?
DICA DA SEMANA
Molho
Escolher a qualidade do tomate para molho é fundamental. Tem tomate para salada e tem tomate para molho: italiano ou rasteiro. Bem maduros, vermelhos, mas íntegros. Sem pele, não tem jeito! Tem que descascar com uma faquinha e muita paciência. Fazer cruz no fundo e colocar na água fervente, depois na fria faz a pele soltar, mas cozinha o tomate e o resultado final - o molho - não fica bom igual ao do tomate descascado. Alho, ao invés da cebola, para evitar que azede fácil e na finalização: manteiga, que traz brilho, consistência e sabor.
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