Arriscar para conhecer


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Saímos a ermo, procurávamos um lugar para jantar, algo romântico, mas sem pretensão, sem mil indicações da comida ou do chef
Saímos a ermo, procurávamos um lugar para jantar, algo romântico, mas sem pretensão, sem mil indicações da comida ou do chef
Numa cidade estranha, saímos a ermo, no fundo uma vontade de ser perder, de nunca mais ouvir familiaridades, de só existir. Mas é mentira, amamos o que temos. Mas como é importante sair do lugar! Retirar o limo que recobre pés que trilham sempre os mesmos caminhos e de repente não se reconhecer dentro do ambiente familiar, para simplesmente pensar: quem sou eu? A mobília, os quadros e fotos nas paredes, a velha e boa comida de todos os dias trazem um conforto bom, mas é preciso o risco, mínimo que seja, é preciso atravessar a linha da segurança para saber como anda a vida. 
 
Saímos a ermo, procurávamos um lugar para jantar, algo romântico, mas sem pretensão, sem mil indicações da comida ou do chef - o diabo é que eram assim todos os lugares, parecia até que um surto de romantismo tomara de assalto toda a cidade. Mas não, absolutamente, ali houvera um notável surto de conhecimento científico e artístico, patrocinados por dinheiro forte. 
 
Saímos a ermo, bati os olhos no Frescobaldi: afrescos modernos na parede, como se a parede estivesse recoberta por papel de parede, boas cadeiras, chama bruxuleante em cima da mesa, nem vazio, nem lotado. Fomos cordialmente recebidos e acomodados. Dois minutos depois recebemos como presentinho do chef um molho de tomate para se comer de colher, o jantar prometia. A cesta de pães, mais tarde pude constatar isso, é meio padrão, o pão branco italiano em fatias e um integral, para “molhar”, o azeite, esse sim, sempre da melhor qualidade e com gosto que remete ao fruto de origem.
 
A fome aperta e, embora quisesse prolongar o momento, era preciso pedir e dar início ao fim do jantar. (Aliás, fica a dica: em boa parte da Europa é chegar, pedir entrada e prato principal de uma vez só e sem demora. Eles não compreendem, tampouco apreciam nosso estilo tranquilo de frequentar restaurantes. A saída é se demorar um pouco para terminar seu vinho). Pergunto sobre o tamanho do prato, a garçonete, magricela, me diz que a porção é boa para ela, perfeito, sedução completa, me decido por ele. 
 
O prato chega: costeletas de cordeiro na crosta de pão com purê de cenoura. Cazzo, que delícia! A culpa, naturalmente, não é do chef, embora ele tenha participação, mas é a danada da qualidade da carne de bichos que vivem soltos, que não se alimentam de ração, que sofrem a mínima intervenção do criador. O perfume da carne era de castanhas; a crosta, delicada, conseguiu assegurar que o tempero de ervas não se perdesse, carne na boca e as papilas espargindo loucamente saliva. Naquela noite, pensei que o meu julgamento pudesse estar sendo influenciado por David, Netuno, sei lá, mas não, hoje sei bem que comi no Frescobaldi a melhor costeleta de cordeiro da minha vida. 
 
 
DICA DA SEMANA
 
Bolo molhado
 
Dia desses fizemos no restaurante como sobremesa o bom e velho bolo “Toalha Felpuda”, aquele de coco bem molhado e gelado que pode ser fatiado e enrolado no papel alumínio para preservar ainda mais a umidade. 
 
Pois bem, quando fui molhar o bolo pensei comigo: em outros tempos eu jamais utilizaria uma quantidade dessas de líquido para molhar um bolo.
 
Daí me lembrei de que quase ninguém usaria mesmo, porque parece que o bolo vai desandar, mas é assim mesmo. Se você quiser fazer um bolo grande, daqueles que a receita leva 5 ovos, gelado e molhado, deverá usar uma lata de leite condensado diluída em cerca de 400 ml de leite. Claro, joga-se por cima do bolo assado, mas ainda quente e todo furado com palitinho. Simplesmente irresistível.

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