Passeio de criança pobre inclui, naturalmente, comer. Quando algum parente nos convidava a visitá-lo, caso fosse qualquer centímetro menos pobre que nós, já sabia que deveria preparar alguma coisa para nós comermos. Daí as mais deliciosas lembranças: pão de linguiça da tia Zinha, vaca atolada, pamonha da tia Nica. Certa feita, fomos visitar uma prima distante, no parentesco, e ao chegarmos a casa dela senti o cheiro que haveria de perfumar pelo resto da minha vida: bolo acabado de assar. Fiquei eufórica, a dona da casa nos disse que passaria um café. Humm! Bolo e cafezinho... E não é que a insensível chega à sala só com o café?! Nada de pratinho, nada de garfinho, nada de pano de prato imaculado cobrindo o disco redondo, dourado e perfumado de bolo - nem farelos ela trouxera. Revoltada, calculei o golpe:
- Mãe, café com cheiro de bolo faz mal?
E a desavergonhada respondeu:
- Bolo quente dá dor de barriga!
A história do bolo quente e a dor de barriga não foi invenção de nossa prima - embora lhe caísse como uma luva -, os adultos que me leem bem se lembrarão do tempo em que as mães e avós deixavam o bolo na grade do fogão até que esfriasse totalmente para que pudéssemos comer. No Nordeste, a “lenda” reza que bolo quente dá “bucho inchado”. Provavelmente a prescrição tem a ver com tempos de miséria, quando a disciplina é que assegurava a alimentação de todos. Um bolo numa casa de numerosos filhos não dá para quase nada, é preciso esperar o momento em que todos estivessem presentes para que a mãe pudesse repartir de forma justa a iguaria. Então, a maneira que as mães encontraram para preservar intacto o bolo era dizer que quente ele faria mal.
Com o passar dos tempos, essas normas domésticas caíram em desuso. Hoje, os bolos se perdem, emboloram, endurecem. As crianças nem gostam mais de bolos caseiros, acostumadas que estão às sobremesas carregadas de açúcares e gorduras. Por isso também, engordam, adoecem.
Mas me lembrei dessa história dias desses quando observava um petit gateau (bolinho assado por fora, mas quase líquido por dentro. Inventado por acaso, virou febre na década de 90, nos EUA). Deu-me vontade de chamar essa prima e lhe apresentar um bolo quente de verdade e que, ainda por cima, não dá dor de barriga.
Entrego-me aos devaneios, penso em como os EUA são mestres em enterrar nossas saborosas caipirices. O petit gateau, quase unanimidade para nosso paladar e hoje servido em qualquer boteco, veio desmentir nossas queridas mulheres que bateram bolos à mão, com colheres de pau em bacias de ágata, que faziam claras em ponto de neve com o garfo, mas detinham autoridade para fazer uma criança esperar que um bolo esfriasse para ser comido.
DICA DA SEMANA
Bananas
Dia desses vi a Rita Lobo falando de bananas e seus tipos e para que servem. Desculpe, mas ela se esqueceu de algo primordial. Sou uma apaixonada por vitamina de banana, quando penso na combinação pão francês, manteiga e vitamina de banana, não tem jeito: salivo!
E ela se esqueceu de dizer que para fazer vitamina de banana tem que ser Nanica, não adianta Prata ou Maçã, vai amarrar.
O bolo de banana também tem que ser Nanica, ela tem mais água.
Em compensação, para acompanhar pratos salgados, a Prata vai muito bem. E para cozinhar com peixe ou carne, a banana da Terra é muito interessante. Até hoje não achei utilidades para as bananas Maçãs e Ouro, exceto comê-las pura. E para fritar, só depende do gosto, tanto faz a da Terra ou a Marmelo.
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