Para além do sentimento de orfandade, acho que a pior coisa de se perder os pais, quando ainda se é jovem, é que se interrompe um ciclo da vida: perde-se a oportunidade de cuidar dos próprios pais, algo que nos coloca definitivamente na maturidade, no exercício pleno da vida adulta. Fomos comemorar os 75 anos do meu pai com um jantar no restaurante Barão, para comer seu prato preferido, o peixe na telha. Tenho uma relação amorosa com esse prato e sei que todas as vezes que o vir chegar, seja na nossa mesa ou na vizinha, é do meu pai que me lembrarei.
Embora ele já tenha protagonizado momento hilário. Certa feita, eu e meu marido apreciávamos nossa costumeira saladinha, no Barão, quando chegaram dois americanos e um rapaz, empregado de algum escritório encarregado de ciceronear os gringos. Infelizmente, para os estrangeiros, com aquele inglês sofrível, bem típico da maioria dos brasileiros que fala inglês. Ele engatou uma demorada explicação dos pratos, o que o aliviou um pouco, pois dispunha de alguns elementos para uma boa conversa. De repente, se viu obrigado a explicar o peixe na telha, e a palavra “telha” lhe faltou. Ele buscava qualquer coisa que o socorresse - e nada. Os americanos, com a calma costumeira, o observavam em silêncio, à espera da conclusão. Acho que quando começaram a brotar as primeiras gotas de suor, disse, satisfeito, que o peixe era feito “on the roof” - ele deve ter pensado: na falta da palavra telha, vai telhado. Só vimos as órbitas dos olhos dos americanos se voltarem para cima e imaginarem o local em que a “cozinheira dos telhados” estaria a preparar peixes. Óbvio, propaganda irresistível, quiseram na hora o tal peixe dos telhados. Da nossa mesa, esperávamos ansiosos a chegada do peixe, para ver a reação dos americanos, que a custo se contiveram: olharam a telha, se entreolharam, respiraram fundo - e as risadas que soltaram foram, até prova em contrário, de êxtase pelo sabor do prato.
O peixe na telha do Barão é o lombo da dourada - não confundir com dourado. A dourada é um peixe do mar, enquanto o dourado é do rio, não há hierarquia de qualidade, é questão de gosto. Mas o lombo é um pedaço alto, por isso, o prato enche os olhos, não se trata de filé fininho. Por isso, também, vai bem no molho, ele aguenta bem o cozimento. O prato é composto pelo peixe, pelo molho, um pirão cheio de sabor e cebolas em pétalas sem qualquer traço de acidez.
É verdade que a liberdade de se escolher, individualmente, aquilo que se quer comer e receber um prato só para você tem uma elegância indiscutível, mas o prato familiar tem um romantismo adequado para uma comemoração de 75 anos, por exemplo. Terminado o jantar, recebi os elegantes agradecimentos do meu pai.
Saímos de lá, fomos até a farmácia para comprar os indefectíveis AAS. Ele insistiu que a sua carteirinha daria descontos, chegamos até o caixa e a atendente lhe pediu o número do CPF, ao que meu pai respondeu altivo: “Domingos Ribeiro de Souza”. A moça me olhou divertida e eu lhe passei o meu número de CPF.
Mas é isso, meu pai, o senhor não é um número. O senhor é meu pai, avô de minha filha Júlia, é o Domingos Ribeiro de Souza, viveu 75 anos de vida até agora, sobreviveu às mais severas privações. E como lindamente já disse João Nogueira, a morte é uma ilusão, quando o espelho é bom, ninguém jamais morreu. É o quanto basta para uma existência, não é?
DICA DA SEMANA
Cozido
Um cozido é de fato uma comida convidativa que guarda a memória dos sabores dos alimentos. Ele reúne todos ao redor da panela, além é claro, de perfumar a casa inteira. Assim como uma sopa é capaz de fazer. Só que está quente demais e normalmente os cozidos são fortes, porque levam carne.
Mas dá para improvisar e fazer um cozido leve e vegetariano, perfeito para encher de sabor umas baguetes crocantes e levíssimas. Para dar aquela cara convidativa e rica de sabor, a escolha dos ingredientes é fundamental. Não é qualquer legume ou verdura que tem essa capacidade. Então: grão de bico, tomates (sem peles!), cogumelos naturais, batata doce, pimentão vermelho ou amarelo e cebolas roxas e alho porro. Para temperar: azeite, pimenta do reino e sal. Com o grão de bico, previamente cozido, você pode colocar tudo na forma e levar para assar. Estará pronto quando estiverem macios.
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