Do anonimato ao protagonismo


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Alunos da Escola ‘Iolanda Ribeiro’ durante visita ao Comércio: conhecimento e aprendizado
Alunos da Escola ‘Iolanda Ribeiro’ durante visita ao Comércio: conhecimento e aprendizado
Os números relacionados à educação no mundo são ainda perturbadores. Do total de 774 milhões de adultos analfabetos no planeta, 72% estão distribuídos por 10 países, entre eles o Brasil. A Índia lidera a lista, com 287 milhões, seguida de China e Paquistão. O Brasil ocupa o 8º lugar neste ranking pejorativo: os analfabetos com 15 anos ou mais chegam a 13,2 milhões. 
 
Os dados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) situam a pesquisa em 2013 e fazem parte de relatório divulgado pela Unesco sobre metas para melhorar a educação até 2015. As perspectivas não são animadoras, segundo Maria Otero, coordenadora do setor no Brasil. 
 
Por manter contatos frequentes com educadores e alunos; também por lecionar para crianças em uma ONG mantida pelo GCN Comunicação, posso dizer que há crianças que chegam bem ao final do 5º ano, com plenas capacidades de utilização da leitura e da escrita. Mas há uma parcela expressiva que está saindo do ensino fundamental sem conhecer o essencial, muitas vezes mostrando que consegue apenas copiar um texto mas não dá conta de o ler.
 
Essa situação explica o número assustador - 33 milhões - que o IBGE registra de analfabetos funcionais, 17% da população. São aqueles que apesar de terem passado três ou mais anos na escola, não leem e escrevem relacionando ideias, embora soletrem palavras isoladas, números de telefone, preços, informações fragmentadas. Isso é desolador, porque significa que a soma dos anos escolares redundou em nada. O desânimo com o próprio fracasso torna-se com frequência marca imobilizadora da criança que não deslanchou e se tornou adulto incapaz de alçar voos.
 
As causas que levam a essa calamidade são difíceis de serem destrinchadas, pois acabam imbricadas umas às outras. Começam no desinteresse do aluno que não vê conexão entre suas necessidades e o que lhe é direcionado como conhecimento. Resvalam pelos baixos salários e inexistentes planos de carreira, fatores que desmotivam professores. Perpassam pela indiferença dos pais diante da vida escolar dos filhos. Transitam por um fenômeno pós-moderno que é a frouxidão dos limites e a indefinição de valores. Desvelam, por fim mas não por último, o total descrédito pela hierarquia e o amplo desrespeito pela autoridade. Sem ordem, método, esforço e disciplina não há construção do conhecimento.
 
Para mudar o cenário na sala de aula, haveria que se mudar o mundo desigual, injusto e opressivo, onde as decisões que impactam a vida são tomadas pelos que detêm poder nos cargos eletivos que temporariamente ocupam. Transformar esse contexto é possível, desde que se esteja habilitado a fazer leituras de mundo ancoradas na realidade e não na auto ilusão, na verdade e não na falsa promessa, na esperança e não no engodo.  Construir um mundo menos insalubre e indigno, lutar por um país mais civilizado e justo, pede tempo e vontade. A tarefa não se cumprirá em um punhado de anos, talvez sejam necessárias décadas, e tem de ser iniciada já, em esforço conjunto de toda a sociedade. 
 
Por acreditar na leitura como instrumento de libertação, pois como disse o jornalista Paulo Francis “quem não lê não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”; e por apostar na formação de novos leitores e novas ideias como condição básica para a construção da identidade, o jornal Comércio da Franca mantém há mais de 20 anos um programa destinado especialmente aos alunos da rede pública de ensino, embora também acolha escolas particulares. Chama-se O Jornal na Sala da Aula e envolveu desde a sua criação centenas de educadores e milhares de estudantes. De início concebido apenas como abertura da redação e parque gráfico à visita de estudantes, nos últimos oito anos, com as novas instalações reunidas no prédio da avenida Eliza Verzola Gosuen, ganhou mais robustez e se transformou em projeto chancelado pela ANJ (Associação Nacional de Jornais) e pela APJ (Associação Paulista de Jornais), em parceria com a WAN - versão internacional do programa. Ampliado, O Jornal na Sala de Aula, sob coordenação da educadora Roberta Rubio Chagas, passou a somar várias atividades, começando pela abertura com palestrantes convidados pelo GCN. Passaram nos últimos anos pelo Auditório “Jornalista Correa Neves” os educomunicadores Cecília Pavani, Cristiane Parente, Talita Moretto, Alexandre de Voci e Ana Gabriela Borges.
 
A partir do começo do ano letivo, duas vezes por semana uma centena de alunos é recebida na Redação Integrada do GCN Comunicação, que compreende a redação do Comércio, os estúdios da Rádio Difusora, o Portal GCN e o GCN Revistas. Depois o grupo segue para o auditório, onde é exibida em vídeo a história do GCN, sendo aberto espaço para perguntas. A visita termina com lanche e brindes. Doze oficinas anuais são ministradas a professores das escolas parceiras por profissionais especializados em conteúdos e atividades onde o jornal é compreendido em sua estrutura física e conceitual. No meio do ano é lançado o Prêmio Jovem Redator, que mobiliza um número grande de alunos. No ano passado o tema foi Somos todos iguais? Este ano é A Copa no meu país. O encerramento das oficinas, em novembro, também comporta prêmios para professores. Os três melhores produtos finais, ou seja, jornais produzidos pelas escolas, são escolhidos por uma comissão de jornalistas e professores. Durante o ano de 2013, para que pudessem trabalhar com o jornal, foram enviados às escolas que firmaram parceria 100 mil exemplares do Comércio e 138 mil Clubinhos. Assim, lendo o jornal, trabalhando com os diversos cadernos que o constituem, o aluno vai aos poucos entendendo como funciona sua cidade; quais são as instâncias de poder; como tramitam as leis. Tem oportunidade de se expressar sobre assuntos de seu cotidiano; distingue notícia de reportagem, nota social de entrevista. Toma conhecimento dos espaços de opinião, para onde todo leitor pode enviar sua queixa ou seu protesto. Aprende a se expressar também por meio de charges; começa a distinguir o gênero textual que lê, introjeta um modelo mais claro de expressão verbal. Principalmente desenvolve o senso crítico, compreende o que é a livre manifestação do pensamento, reconhece seus direitos e deveres enquanto cidadão. Comprometido com a leitura, e diante da vastidão do mundo que então descortina, deixa de ser manipulável, apura a observação, consegue discernir o verdadeiro do falso. Ele sente que tem uma voz, que pode falar e ser ouvido, que é capaz de deixar o anonimato e se transformar em protagonista de sua história. A partir das páginas do jornal ele conquista um espaço precioso para sua pessoa. Na escola, em casa, na rua, no bairro, na sua cidade. 
 
Por conferir múltiplas oportunidades de crescimento às crianças, formando leitor e cidadão, o programa O Jornal na Sala de Aula pode ser usado sem moderação. O único efeito colateral está relacionado à alergia que causa nos governos autocráticos, a quem as críticas sempre parecerão ataques pessoais e nunca a expressão do diverso que caracteriza a democracia. Essa lição também se aprende por aqui.

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