História visual


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Série Trabalhadores foi publicada em maio
Série Trabalhadores foi publicada em maio
Apesar de o termo ensaio fotográfico ser amplamente explorado por fotógrafos de diversas áreas atualmente, é difícil dizer quando seu uso é mesmo adequado. Todos já vimos o termo estampado em jornais impressos, revistas, editoriais de moda, dentre outros meios. Demonstrando que entrou para o vocabulário comum. Adotado por importantes veículos de comunicação brasileiros, como a revista Veja e o jornal O Globo, do Rio de Janeiro, também é visto com frequência nas páginas do Comércio da Franca.
 
A palavra ensaio tem sua origem em essai. Traduz-se do francês como tentativa. Dessa definição, ressaltamos o aspecto experimental que envolve o termo. Ao procurarmos no Dicionário Aurélio, veremos que ele nos apresenta várias outras definições sobre essa palavra. Seguindo uma segunda definição de “ensaio” e à definição de “ensaísta”, vemos que nos dois casos existe uma óbvia ligação com a literatura.
 
No resgate de sua história, ainda na antiguidade greco-romana, Plutarco (46-120) incluiu ensaios em suas obras Parallel Lives e Moralia. Contudo, o ensaio moderno como conhecemos só pôde ser visto a partir do século XVI, quando Michel de Montaigne e Francis Bacon publicaram suas primeiras obras do gênero. No século XX lhe foi concedido o status de gênero literário. Ajustando-se ao campo da fotografia, o gênero ensaio ganha força, experiência e novo significado.
 
Mary Jane Hoffer, pesquisadora da Universidade Columbia, em Nova York, Estados Unidos, vai conceituá-lo da seguinte forma: “Seu impacto depende não só de imagens individualmente fortes, mas também da inter-relação entre estas imagens. O formato pode assumir várias formas e tamanhos. Os temas também podem variar. Uma qualidade que todos os ensaios têm é sua independência pictórica (estética)”.
 
Quanto à sua origem na fotografia e sua história, é difícil afirmar com certeza quem, quando e onde se produziu o primeiro trabalho ensaístico fotográfico. Alguns estudiosos do tema afirmam que foi na Alemanha de 1928, quando o fotógrafo André Kertesz publicou, na revista Berliner Illustrierte Zeitung (BIZ), seu trabalho sobre uma antiga ordem de monges franceses intitulado A casa do silêncio.
 
Fundada em 1936 por Henry Luce, a revista americana Life contribuiu enormemente para este gênero. A publicação proporcionava um amplo tratamento visual a um tema previamente escolhido. A redação antecipava e planejava sua cobertura, a ponto de requisitar ao fotógrafo várias imagens-tipo em todos os ensaios.
 
A nova forma de publicar trabalhos fotográficos foi trazida ao Brasil pelo fotógrafo e editor Jean Manzon, que deu à revista O Cruzeiro um visual de padrões europeus. Seguindo O Cruzeiro, outras publicações mergulharam na febre dos ensaios. Entre elas a tradicionalíssima Íris, a mais antiga publicação brasileira especializada em fotografia e que circulou por mais de 50 anos.
 
A revista Veja também adotou este gênero fotográfico em suas matérias. Sobre os ensaios publicados, um em especial merece destaque. O de Cristiano Mascaro sobre o Natal na Portela, de 2006.
 
Há alguns anos, essa forma de contar histórias começou a ganhar espaço nas páginas do Comércio. Um, em particular, me marcou. O ensaio do fotógrafo Silva Júnior sobre uma viagem feita no lombo de mula pelos vales e montanhas da Serra da Canastra. Publicado na edição de 2 de setembro de 2007, com um pequeno texto introdutório, escrito pelo próprio fotógrafo em primeira pessoa, diversas fotos espalhadas por duas páginas de jornal, acompanhadas por legendas, também na primeira pessoa, dava um completo panorama do que havia sido aquela aventura de atravessar um terreno tortuoso em cima de um animal rústico.
 
Contudo, é importante ressaltar que, quando a então repórter Nelise Luques assumiu a editoria do jornal, há cerca de um ano e meio, essa forma de narrativa ganhou uma nova roupagem. Além do trabalho conjunto entre repórter e fotógrafo, as páginas ganharam um layout gráfico mais ousado, em sintonia com o novo projeto gráfico do jornal, implantado em agosto do ano passado. Um bom exemplo de parceria entre repórter e fotógrafo foi o trabalho feito por Felipe Cavalieri e Wilker Maia mostrando um dia de resistência física e psicológica em que quase 100 atiradores do Tiro de Guerra de Franca enfrentaram em treinamento numa fazenda em Cristais Paulista. O resultado do trabalho rendeu página dupla no jornal de domingo, na edição do dia 13 de outubro de 2013. No entanto, as transformações não pararam por aí. Outra novidade foi a publicação dos ensaios fotográficos em forma de série. Eu mesmo, como membro da equipe fotográfica do jornal, fui autor dos ensaios que compuseram duas séries: uma sobre as igrejas da região - publicada durante quatro domingos consecutivos nos meses de outubro e novembro de 2013 - e outra sobre trabalhadores manuais. Essa última publicada em preto e branco, como forma de imprimir maior força visual ao conjunto de imagens que compunham os ensaios. Tornando as imagens menos dispersivas e direcionando o olhar do leitor para aquilo que realmente importava: o esforço físico despendido por seres humanos. A série, publicada no mês de maio deste ano como forma de homenagear trabalhadores, foi resultado de muita discussão entre Nelise, eu e Joelma Ospedal, editora chefe do Comércio.
 
Num tempo em que as verbas publicitárias se tornam cada vez mais difíceis e a internet se tornou uma grande concorrente dos meios de comunicação impresso, é louvável a ousadia do Comércio. Mas é inegável, também, que quem ganha com isso é o leitor. Afinal, assim como a escrita, fotografia é linguagem. E tão bom como ler uma história contada através de um texto bem construído é ver uma boa história contada através de uma bela narrativa visual.

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