Após morte de jovem em acidente, mãe me procura


| Tempo de leitura: 3 min
O fotógrafo Dirceu Garcia no local do acidente
O fotógrafo Dirceu Garcia no local do acidente

por Dirceu Garcia

Depois de mais uma noite de trabalho no jornal, eu e um amigo fomos ao City Posto tomar umas cervejas antes de ir pra casa. No caminho de volta, ouvimos uma batida bem à nossa frente e, ao dirigir mais um pouco, vimos um carro que tinha se chocado contra um poste na rotatória da rua Afonso Penna com a avenida Doutor Hélio Palermo. Fomos os primeiros a chegar ao local, chamamos o Corpo de Bombeiros e descemos para ver quem estava ali.

Havia no carro dois jovens, que foram socorridos - um deles, infelizmente, não sobreviveu ao acidente. O que já seria uma noite negativamente marcante para qualquer um, ainda teve traços dramáticos para mim. Ao longo dos 17 anos em que trabalho no jornal, já cobri muitos acidentes. Mas o envolvimento com cada um deles tem que se dar apenas no momento da cobertura. Senão fica impossível lidar com essa rotina. Mas, nesse caso, foi diferente. Dois ou três dias depois do acidente, fui procurado pela mãe do garoto que havia morrido. Ela queria conversar com quem havia estado com o filho dela e queria também ver fotos que fiz do local, na esperança de que pudesse ver ali o jovem ainda vivo. Foi devastador explicar que tinha estado lá, mas infelizmente não tinha as fotos que ela queria, pois simplesmente não as havia feito - normalmente não fazemos fotos fortes, que mostrem em close pessoas feridas ou mortas.

Mais um ou dois dias depois, fui procurado novamente por três jovens, dois irmãos e uma irmã do rapaz que morreu. Eles vieram novamente falar comigo na esperança que eu tivesse fotografado o seu irmão naquele momento e tivesse mentido para poupar a mãe. Argumentaram que entendiam que normalmente não seria bom uma mãe ver uma foto destas, mas que este não era o caso da mãe deles. Eles acreditavam que eu teria fotos do seu irmão - realmente não tinha.

Depois de muita conversa, consegui convencê-los, mas eles pediram para que eu fosse até a casa deles e levasse qualquer foto que eu tivesse do carro ou mesmo do local. Marcamos para o fim de semana seguinte, no domingo de manhã. No dia combinado, acordei e fui para o endereço. Como tinha trabalhado na noite anterior, cheguei à casa com o almoço já sendo preparado. Fui recebido pela mãe e subimos uma escada. Cheguei a um quarto com um computador para o qual eu passei as fotos. Fiquei preocupado com qual seria a reação da mãe ao ver as cenas e me surpreendi. Depois de ver as fotos, a mãe chorou muito e me abraçou. Não sei dizer exatamente o porquê, mas foi um momento muito emocionante e marcante pra mim. Talvez porque naquele momento eu não estivesse “protegido” pela armadura de repórter que temos que usar sempre, para tornar suportável coberturas como essas. Eu era, para a mãe, apenas a cara que havia estado com seu filho querido. Faz muito tempo, mas até hoje, mais de seis anos depois, tenho a lembrança deste momento viva na minha mente.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários