Uma reportagem a 1,3 mil quilômetros de distância


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O fotógrafo Silva Júnior e a repórter Patrícia Paim foram à Bahia acompanhar a história dos trabalhadores que vem para Ibiraci (MG) para trabalhar na safra de café
O fotógrafo Silva Júnior e a repórter Patrícia Paim foram à Bahia acompanhar a história dos trabalhadores que vem para Ibiraci (MG) para trabalhar na safra de café

por Patrícia Paim

Sussuarana para mim era apenas uma espécie de felino. Não tinha ideia que também dava nome a um vilarejo cravado no sertão da Bahia. Só fiz essa descoberta em setembro de 2006, quando lá estive. Não foi uma viagem de férias. Fui atrás de histórias. Fui conhecer de perto a dura realidade que faz com que milhares de baianos todos os anos viajem 1,3 mil quilômetros para trabalhar nas lavouras de café de Ibiraci (MG). Das fazendas mineiras, após até oito meses de trabalho, tiram o único sustento da família para o ano todo.

Eu e o fotógrafo Silva Júnior - que na época trabalhava no Comércio - juntamos a ideia com o entusiasmo e fomos atrás dos baianos em Ibiraci para programar a viagem. A proposta inicial era viajar com eles no ônibus fretado especialmente para levá-los de volta para casa. O que parecia simples, não foi. Acertamos a viagem com o “gato” (responsável pelo fretamento do ônibus). Porém, dois dias antes, ele ligou dizendo que não nos levaria e ainda espalhou para os baianos que nossa intenção era dizer que eles tiravam o trabalho dos mineiros. Quase desistimos. Mas resolvemos ir de carro atrás do ônibus. No dia da viagem, lá estamos nós uma hora antes do tempo marcado para a saída. Mas ainda faltava algo para que conseguíssemos seguir com a proposta da matéria. Tínhamos que encontrar um baiano e acompanhá-lo durante toda a viagem até sua casa. Falei com vários e só recebi “nãos” como resposta. Já meio desesperada, eis que um homem se aproxima dizendo que não teria problemas em acompanhá-lo. Eu acabava de conhecer Aloísio Gomes Rocha e seus dois filhos adolescentes.

Iniciamos a viagem. Sempre que o ônibus parava, o Silva Júnior ia fazer suas fotos e eu tentava me aproximar dos baianos para conhecer um pouco da história deles. Cheguei a ficar falando sozinha. Foi então que percebi que antes tinha que conquistar a confiança dos viajantes para conhecer suas histórias. Então guardei meu caderno e gravador e, pelas dez horas seguidas, em todas paradas, me aproximava e apenas batia papo. E o Silva mostrava as fotos que ia fazendo. Aos poucos, eles foram se soltando. Após 22 horas de viagem, tinha recebido o convite de cinco trabalhadores para conhecer suas casas.

Ao fim de cinco dias, visitamos 12 famílias, entrevistamos mais de 40 pessoas, conhecemos três cidades, fizemos mais de 5 mil fotos e quatro horas de gravação. Ao fim de tudo, retornamos para casa com a sensação de missão cumprida: vamos contar uma boa história. Mas também com uma triste constatação: aquelas famílias vivem em uma pobreza extrema. Por lá, falta de tudo. Não tem água potável, não tem como plantar absolutamente nada, porque não chove por meses, e poucos conseguem emprego.

O resultado da viagem foi uma série de reportagens publicada durante uma semana em outubro de 2006. A matéria rendeu uma menção honrosa no concurso CNC - 25 anos na construção do futuro da cafeicultura, do Conselho Nacional do Café, e ficou entre as três melhores (região Sudeste) no Prêmio Imprensa Embratel.

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