Minhas vinculações afetivas com o Comércio começam mesmo na Rua do Comércio, quando ele foi transformado em jornal diário. Ainda era o tempo das linotipos e cores nas páginas do jornal era sonho distante. Estamos falando da segunda metade dos anos 50, que muita gente acredita ser os “anos dourados”. O jornal se transformara não só na sua periodicidade de circulação, mas principalmente no seu papel, na ampliação do conteúdo e nos objetivos com relação à urbe na qual estava inserido. Com isso, iria contribuir para reformar costumes, alterar cultura, ampliar horizontes de aspirações. Da nossa gente, da nossa cidade, do país, enfim.
São 98 anos! Quase um centenário! Conheci na Franca do Imperador muitos veículos de comunicação: o Diário da Tarde, o Aviso da Franca, O Francano. Houve outros, mas de vida efêmera. O Diário era dirigido por José Chiachiri, pai do reconhecido e prestigiado historiador José Chiachiri Filho, também colaborador do Comércio. O Aviso da Franca era uma iniciativa da Igreja Católica local, misto de informativo e divulgador da doutrina religiosa dos seus criadores. Por sua vez, O Francano era a personificação do seu diretor, o otimista, querido amigo de todo mundo, além de incentivador e promotor do futebol amador da cidade, Tuffy Jorge. O Comércio cresceu e sobreviveu a todos. Com galhardia, profissionalismo, espírito público e, sobretudo, visão dos seus dirigentes.
Ao relembrar esses fatos, começo a pensar que o tempo é, realmente, um tirano sedutor, um mocinho de bons propósitos e um vilão desalmado, um leva-e-traz de convivências, realidades, sonhos, fantasias, ilusões. Traz, nos deleita, proporciona o usufruto, mas, depois, leva embora. O Eclesiastes já deixara claro que “tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.” Felizmente, algumas coisas e gentes que amamos e com as quais convivemos duram mais que outras. Nosso Comércio e as gentes que viveram e vivem em torno dele são exemplos disso.
Por feliz coincidência do destino, a mudança na periodicidade de circulação do jornal aconteceu quando fui beneficiado com a amizade pessoal de Alfredo H. Costa Filho (da qual me orgulho até hoje), filho do homem que iria empreender aquela transformação, Alfredo H. Costa, o AHC. A partir daí, tive oportunidade de frequentar, com razoável assiduidade, a redação do jornal no fechamento da edição até a saída para a impressão. Era realmente grande a emoção de assistir a finalização dos trabalhos e, uma vez, feitas as primeiras provas tipográficas, poder levar para casa um exemplar do jornal que circularia no dia seguinte.
Nas oficinas, o “chefão” era o Paulo Pires. Com muito conhecimento das máquinas a seu dispor, comandava seu território com mão de ferro, sorriso maroto e bom humor para “aceitar” as broncas do AHC. Ali, mandava ele e ponto final. AHC dirigia o jornal e tinha a seu lado o suporte administrativo e financeiro de Márcio Bagueira Leal e Jorge Cheade.
Para um aluno do curso técnico de contabilidade do Instituto Francano de Ensino como eu, deslumbrado em assistir nalgumas noites o fechamento da edição do Comércio, tive oportunidade de “ver” trabalhar o grande maestro do espetáculo, o redator-chefe Márcio Campelo, severo contador do Banco Mineiro da Produção, durante o dia de expediente bancário, e exigente intelectual a comandar a redação no período noturno.
Muitas vezes, em noites de descontração, saíamos da redação (eu era mero acompanhante) e, antes de irmos para casa, passávamos pela A Colegial, bar, sorveteria e confeitaria de renome na cidade, de propriedade da Família Archetti, que funcionava na esquina das Ruas Major Claudiano e General Carneiro (onde está hoje o BB). Ali, entre um choppinho e outro, é que surgiam para o “petit comitê” o conhecimento da língua portuguesa, da literatura brasileira e as preleções do redator-chefe. Nessas tertúlias, travei conhecimento com Augusto dos Anjos, poeta paraibano, com Fagundes Varella, Manuel Maria Barbosa Du Bocage, e relembrei tantos outros. As pequenas libações alcoólicas do fim de noite de trabalho faziam fluir, como suave torrente, pequenos trechos de obras para mim extraordinárias, maravilhosas, como por exemplo:
“Tome, Doutor, esta tesoura, e corte
Minha singularíssima pessoa
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo meu coração, depois da morte?”
Augusto dos Anjos - Budismo Moderno
Ou, então,
“Parece-me muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.’
Idem - Versos de amor
Mas, do trágico poeta paraibano, o que mais nos emocionava nas tertúlias d’A Colegial com o redator-chefe do Comércio eram os Versos Íntimos:
“Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera
Somente a ingratidão -esta pantera -
Foi tua companheira inseparável.”
Talvez pelo impacto final do soneto:
“Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!”
Noutras noites, era a vez de nos deliciarmos com os escritos de Bocage, notável poeta lusitano. A propósito, vem-me à lembrança o soneto no qual o vate pede a Deus que o ajude a morrer bem, já que viver não soube:
“Meu ser evaporei na lida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.”
Ou de Fagundes Varella, no seu Cântico do Calvário, feito em memória de seu filho morto em dezembro de 1863:
“Eras na vida a pomba predileta (...)
Pomba - varou-te a flecha do destino!
Astro - engoliu-te o temporal do norte!
Teto - caíste! Crença - já não vives!”
Assim foi minha ligação sentimental com o Comércio. Quero lembrar agora dois personagens interessantes e de destaque que -por essa época - o tempo havia trazido para nosso convívio e nossa satisfação. O primeiro é Olintho Pinto Coelho, proprietário do Empório Coelho, armazém de nível e qualidade que servia “secos e molhados finos” ao (exigente) consumidor francano. Caso ainda existisse, o Empório Coelho seria mais ou menos como a Casa Godinho, ali na Rua Líbero Badaró, em São Paulo, ou o Empório Santa Luzia, nos Jardins, também na capital. Aquela, no formato tradicional de armazém, e este já no padrão de supermercado classe A.
São dois eventos que me ligam, no tempo, à figura de Olintho Pinto Coelho. O primeiro deles é a escrituração dos livros contábeis da empresa e o segundo, um detalhe do edifício onde se localizava o empório.
Como muitas pessoas sabem, o livro Diário é o que registra, na técnica contábil das partidas dobradas, os “atos e fatos” que realiza uma empresa (compras, vendas etc.). Por imposição legal, todas elas devem ter o seu. Naquela época, eu trabalhava (com muita honra) no Escritório Técnico-Técnico Contábil Labor (assim mesmo, com nome e sobrenome) fundado e dirigido por Álvaro Amaral Ledier, profissional de primeira linha na área contábil. Olintho exigira do Escritório Labor que seu Diário, no formato dos livrões estilo Banco Comercial do Estado de São Paulo, fosse escriturado, durante o ano, por uma só pessoa para que a letra ficasse uniforme por todo o exercício contábil-fiscal. Fui o felizardo escolhido.
E aí vem a outra história. O prédio do Empório, na Rua Major Claudiano, tinha logo na entrada uma pequena sobreloja, onde funcionava o escritório da empresa e cujo acesso era feito por uma íngreme e acanhada escada. Na sua base, Olintho colocara uma talha, aquele bojudo recipiente de cerâmica para armazenar água. Quando eu ia lá escriturar o fabuloso Diário, vinha a recomendação: “Menino, cuidado ao descer a escada, pois, se você tropeçar e cair vai quebrar minha talha!”
Por indicação do meu pai, Euclides de Oliveira, tomei afeição por uma singular figura, o diretor-redator-proprietário de O Francano, e dirigente esportivo Tuffy Jorge, de quem destaco uma qualidade, entre muitas que ostentava. Ele gostava de elogiar as pessoas, procurando destacar suas qualidades. Verdadeira mania de um coração bondoso. Segundo consta da lenda, a propósito disso, teria saído no jornal a seguinte notícia:
“Nasceu hoje o inteligente menino, Fulanito de Tal ...”
O tempo trouxe, o tempo levou embora pessoas como Olintho, Tuffy e muitas outras notáveis e queridas daquela época. Ganhou o Eclesiastes, perdemos nós, amigos e admiradores, clientes e leitores. Perdeu a Igreja Presbiteriana, da qual Olintho era fiel seguidor. Perdeu a imprensa e o esporte amador. Mas anote Sr. Tempo, tirano sedutor, mocinho e bandido, leva-e-traz: suas façanhas e estripulias o Comércio as vem registrando há quase um século. E continuará fazendo isso por muitos e muitos anos mais.
Vicente P. Oliveira
é economista
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