O ‘Comércio da Franca’ e eu


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Amanhece. Clareia. Apesar dos evidentes prenúncios de sol ou chuva ou frio ou calor para as próximas horas, as condições meteorológicas são mistério: a devastação da natureza se mostra mais poderosa que as aferições científicas. Restam os palpites fornecidos pelos humanos sobre o tempo que fará: dor nas juntas, no calo, indicador molhado na saliva e exposto ao vento, cabelos mais - ou menos - assanhados. Batata! Todavia, se começamos o dia desconhecendo-lhe o circunstante cenário, nos certificamos de seu início a partir do momento em que olhamos lá fora. O jornal chegou? Começou. Não chegou? Não, não começou. Será bom? Não será? Vai depender do humor de cada um diante das notícias...

Todas as manhãs, quando pego o exemplar do Comércio da Franca - que chega aos leitores faça frio ou faça sol há noventa e oito anos - sinto que com ele chegam figuras que participaram da minha vida, formação ao escrever textos e poesias que adorava ler. Chegam Alfredo Palermo, Alfredo Costa, Márcio Bagueira Leal, Hugo Bettarello, Paquito Moreno. René Parzewski, Marina de Andrade e Luiz Carlos Facury. Entram, nessa horda de anjos e doces demônios, os atuais colaboradores, amigos e joias do jornalismo francano: Patrícia, Valdes Rodrigues, Higininho, Anderson Pinheiro, Edson Arantes, Wilson Marini, Denilson Carvalho, Toninho Menezes, Pe. José Geraldo. Recebo José Corrêa Neves Júnior e Sonia Machiavelli. Isso, sem falar dos fotógrafos, redatores, paginadores, revisores, editores, distribuidores, entregadores, paginadores e do duo Joelma e Dulce, as prima-donas do processo editorial.

O momento da entrega do exemplar do Comércio da Franca, para mim é solene. E obedece o ritual. Embora tudo se passe numa fração de nano-instante, desço as escadas para buscá-lo no jardim da frente, ao mesmo tempo em que todos que estiveram envolvidos no processo daquela edição passam-me pela memória. Eu os reverencio em silêncio. Pego o pequeno embrulho, leio a manchete do dia. Enquanto isso caminho para a cozinha. Sento-me à mesa, desdobro o pacote com zelo, leio as chamadas da primeira página. Segunda página do primeiro caderno devorada, aí é só felicidade. Tomo o café, bagunço a ordem das páginas seguintes. Leio as colunas, classifico quem está nas fotos, arrepio com as atrocidades, acho mais um motivo para temer o futuro do país nas mãos de corruptos, encontro a justificativa -ou não - para alguma atitude do atual prefeito, sinto coceiras com as picuinhas dos políticos locais entre si. Necrológio? Olho com o rabo do olho: morro de medo de ler nomes ou ver fotos de alguém conhecido.

Os Sete Pecados Capitais, considerados trilha para o Orco, bem utilizados são passarela para exitoso caminhar humano rumo ao crescimento. Ao ler o Comércio, confirmo a teoria. Cada dia, todos os dias - encontro motivo para tais pecados. Identifico-os e admito que fico feliz com a prática deles. Passo a elencá-los. A Gula eclode com as páginas de Sônia e Adriana. A Luxúria, com as produções de moda e viagens. Avareza e Ira são despertas diante do quadro de esbanjamento do dinheiro público: isso me leva a querer fiscalizar melhor as contribuições ao governo. Minhas e alheias. A Vaidade assoma quando abro o jornal de sábado e dou com meu nome colocado entre gente da melhor qualidade literária, no suplemento Nossas Letras. Aí tento driblar a Soberba decorrente. E o Orgulho? Ter voltado há quatro anos ao quadro de colaboradores do jornal onde publiquei meu primeiro artigo, há mais de trinta anos, é razão e tanta. Parabéns, Comércio. E obrigada. Você me faz muito bem.

Lúcia Helena Brigagão
é jornalista, publicitária e membro da Academia Francana de Letras

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