Olaíra de Moraes Silvério, leitora do Comércio, é uma colecionadora de jornal. De uma parte bem específica: receitas. Natural de Ibiraci, veio para Franca aos 25 anos de idade. Pessoa de hábitos simples, nascida na roça, sempre enfrentou a vida com tranquilidade e bom humor. No começo, ainda em Ibiraci, foi dona de bar ao lado de seu marido, José Silvério Filho, mais conhecido por Zuza. Nesse estabelecimento, logo começaram a oferecer um sorvete produzido por eles mesmos, um produto que não mais abandonaria o casal e que até hoje é sua marca registrada: a Sorveteria do Zuza e da Olaíra, atualmente no City Petrópolis, bairro onde moram há cerca de 20 anos.
E a vida transcorria tranquila, exigindo aquela cota de sacrifício normal e cotidiana que é solicitada a todas as famílias normais. Um dia, porém, mais especificamente 31 de outubro de 2005, data em que completava 46 anos de casada (ela não se esquece dessa data), Olaíra deparou-se com uma receita de quindim que o jornalista e radialista Valdes Rodrigues estampava em sua coluna.
“Eu nem sei explicar direito, mas me deu uma vontade de colecionar. Eu adoro o quindim. E adoro Valdes também. Já ouvia o programa dele há muito tempo”, lembra Olaíra.
Naquela época, ela ainda nem assinava o jornal. Comprava apenas os exemplares de domingo, pois não tinha dinheiro nem tempo para ler o jornal todos os dias.
Desse dia em diante, passou a recortar todas as receitas que saíam aos domingos. Um trabalho caprichado e muito bem composto em folhas sulfites que ela passou a organizar em uma pasta.
Cuidadosamente, Olaíra recortava a receita junto com a fotografia de quem a havia enviado. Mas, para não perder a ligação com a coluna, recortava também o cabeçalho, que tinha sempre a fotografia do Valdes. “No primeiro dia em que fui colar, percebi que não tinha cola. Mas não tive dúvida, fiz uma daquelas caseiras, de polvilho. E está aqui até hoje”, conta Olaíra. Mas, como ela não assinava o jornal, tinha sempre que pedir a alguém para comprar-lhe o exemplar de domingo, já que era complicado se afastar da sorveteria nesse dia.
Além disso, às vezes chegava tarde e já não havia mais exemplares do Comércio, o que a obrigava a perambular pela cidade na segunda-feira em busca de algum jornal remanescente, ou até mesmo tentar encontrar algum exemplar do qual pudesse pelo menos recortar a receita.
“Mas aí eu percebi que era muito trabalhoso. Como estava convencida a colecionar as receitas, resolvi fazer a assinatura. E não é que no dia seguinte alguém do Comércio me ligou”, lembra Olaíra.
Depois da assinatura, o problema foi impedir que os clientes da sorveteria “levem” o seu jornal, que é entregue lá. E um jornal em cima de um balcão ou uma mesa é bastante convidativo para quem está apenas tomando um sorvete sentado a uma mesa.
“O pessoal via o jornal e queria ler. Mas eu dizia que só depois que eu tivesse recortado a coluna do Valdes”, sorri Olaíra.
De qualquer forma, ela lembra que não podia bobear, pois do contrário ficava sem o jornal. Em função disso, assim que ele era entregue ela já recortava sua coluna.
O gosto pelas receitas, Olaíra acredita ter vindo de seu apego pela cozinha. Como muitas mulheres de sua época, ela também é uma cozinheira de mão cheia. Gosta de fazer, criar e copiar receitas, pois acredita que, apesar de já saber cozinhar, essa é uma arte em que sempre se pode aprender mais alguma coisa, entre novidades e outros aperfeiçoamentos.
Nos domingos, sua casa transforma-se no ponto de encontro da família, algo nada difícil de imaginar para uma mulher que teve quatro filhos e já está com 11 netos e sete bisnetos.
“Minhas filhas, noras e netas adoram comer aqui. Elas dizem que sempre se cansam rapidamente de suas comidas”, diz Olaíra.
Das cerca de 400 receitas já recortadas, ainda não conseguiu experimentar todas elas, até porque existem algumas que, comparativamente às suas, ainda não a convenceram.
“Tem algumas coisas que prefiro fazer do meu jeito, mas guardo mesmo assim porque uma coisa é colecionar e outra, bem diferente, é cozinhar.”
Ela mesma, certa vez, enviou uma receita para o Valdes e, obviamente, teve sua sugestão publicada pela coluna, uma sugestão que ela guarda da mesma maneira que as outras, sem nenhuma regalia, apenas obedecendo ao critério das datas de publicação.
A partir dessa coleção das receitas, Olaíra acabou se empolgando ainda mais. Atraída pelo que ela chama de uma excelente forma de terapia, começou também a colecionar as fotografias antigas e as piadas que são publicadas pela coluna dominical do Valdes.
O problema que Olaíra está enfrentando atualmente é a desorganização de todo esse material, que, apesar de recortado, ainda está armazenado em sacos plásticos e não em álbuns com espaços específicos para cada um dos recortes, como ela gostaria.
“O problema é que nesses últimos tempos eu tive que cuidar de uma irmã que ficou muito doente e veio morar comigo. Aí não deu para organizar mais nada, além de recortar”, diz Olaíra.
Agora, porém, com mais tempo e determinação, ela promete que em breve chamará o Comércio da Franca e a Rádio Difusora, que ela ouve todos os dias, inclusive aos domingos, para que todos possam contemplar a coleção completamente organizada.
Mas ela já avisa. Se vir o Valdes de novo, vai puxar-lhe as orelhas por ele ter parado de publicar as receitas em sua coluna.
Mas, como outubro é para ela um mês significativo, onde tudo acontece - ela nasceu no dia 16, se casou no dia 31 e iniciou a coleção das receitas também nesse dia -, ela espera que até outubro próximo o Valdes já tenha voltado a publicar as receitas que ela tanto gosta.