Um jornal não é tão descartável quanto parece. Se o papel em que se imprimem suas notícias pode ser jogado fora no dia seguinte, a força simbólica de seus conteúdos acaba permanecendo na relação diária que as pessoas estabelecem com o jornal.
A família de Myron Lourenço Borges, infelizmente morto em março passado, aos 92 anos de idade, é um bom exemplo dessa relação em que o jornal é mais que um papel descartável.
Nascido em Sacramento, a mesma cidade de sua mulher, Selma Oliveira Lourenço, hoje com 81 anos de idade, Myron formou-se em contabilidade no Ginásio e Academia Comercial Rui Barbosa, de São Paulo, em 1942, quando então retornou para Sacramento e começou a atuar como contador.
Casaram-se em 1949, data em que Myron já começou a mostrar sua inclinação para essas coisas de guardar papéis, jornais e outros objetos significativos que, mesmo de forma discreta, nos ajudam a compor a história que vamos construindo.
Segundo Selma, ele guardou o anúncio de seu noivado, publicado pelo jornal espírita Nova Era, doutrina que eles professaram durante toda a vida.
Mas os recortes e recordações de Myron não se limitariam apenas ao anúncio do noivado. De acordo com Selma, várias outras coisas se acumulariam pelos escritórios que ele montou nas várias casas em que moraram.
“Ele guardava de tudo e não jogava nada fora. Papéis de toda a sorte e vários artigos de jornais que lhe interessavam. Eu não entrava no escritório, nem para limpar, porque ele não gostava que mexessem em nada”, lembra Selma.
Em 1953, o casal veio para Franca. Enquanto Selma continuou com seu trabalho de costureira, função que exerceu por mais de 30 anos, Myron logo começou a prestar seus serviços na área contábil. Trabalhou em várias empresas, entre elas a Amazonas. Mas, foi na área hospitalar que ele acabou encontrando o seu verdadeiro espaço. Sempre atuando como contador, começou no Hospital Alan Kardec e depois foi para a Santa Casa, onde ficou até 1974, ano em que a família resolveu se mudar para Belo Horizonte.
“Os nossos filhos já estavam grandes e eles queriam outras opções de estudo, algo que ainda não havia por aqui. Então, nós resolvemos mudar para uma cidade maior”, lembra Selma.
Nesse meio tempo, Myron havia feito um curso de especialização em contabilidade hospitalar, uma certificação que o ajudou a conseguir uma boa colocação na capital mineira.
Lá ele entrou para os Hospitais Reunidos, hoje denominado Admédico, o primeiro plano de saúde criado em Minas Gerais, em 1971, fruto da união de vários hospitais da cidade.
Depois de aposentado, Myron continuou trabalhando em Belo Horizonte. Com as relações que tinha em Franca e com o conhecimento que tinha da área calçadista, passou a representar várias empresas francanas na região metropolitana de Belo Horizonte.
Em 2001, Myron e Selma decidiram voltar para Franca. Os filhos já estavam encaminhados, muitos parentes ainda viviam em Franca e Sacramento, inclusive a filha mais velha, Mirian Lourenço da Silva, que trabalhava como enfermeira.
Muito ativo, porém, Myron não conseguiu ficar sem trabalhar. Por mais alguns anos, continuou atuando como representante comercial.
“O Myron não ficava parado. Ele sempre dizia que quem não tinha o que fazer deveria inventar”, sorri Selma. Com a boa saúde que tinha, inventava coisas todos os dias. “Ele podava árvores, varria a casa, consertava o que fosse necessário e não queria que ninguém o ajudasse em nada”, lembra seu neto, o biólogo e educador ambiental Leandro Lourenço da Silva, de 24 anos, hoje trabalhando no setor de responsabilidade social do Sesi, em Franca.
PNEU
Certa vez, quando tinha 88 anos, o pneu do carro de Myron furou. Como estava sem macaco, telefonou para Leandro e pediu ao neto que o levasse para ele.
Quando chegou ao local, Leandro se lembra de ter ido direto para o pneu e de ter começado a trocá-lo, no que foi imediatamente interrompido pelo avô.
“Ele me disse que eu podia ir cuidar de minhas coisas, porque ele ainda podia trocar o pneu”, se recorda Leandro.
O neto ainda insistiu para ajudar, mas não teve jeito. Myron não queria saber de ajuda. Leandro se lembra de que ainda ficou de longe espiando, só para ter certeza que tudo iria dar certo. “Ele chegou até a entrar no porta-malas para puxar o pneu. Foi devagarzinho, mas conseguiu trocá-lo sozinho”, conta Leandro.
Mas, como não tinha mais a responsabilidade do trabalho, Myron passou a desenvolver outro hobby. Leitor assíduo desde muito jovem, assim como Selma, Myron começou a dedicar-se um pouco mais à leitura. Mas enquanto Selma se concentrava mais em seus livros espíritas, Myron variava um pouco mais, sobretudo com revistas e com o jornal Comércio da Franca, que sua filha Mirian assinava, mas que era entregue em sua casa. “É que na minha casa, por razões logísticas, a entrega era muito difícil. Então pedi que entregassem o jornal na casa de meus pais, porque eu moro bem perto”, conta Mirian.
Em função disso, logo pela manhã Myron já pegava o jornal e o lia de uma só vez. Mas sua leitura não era daquelas mais rápidas e comuns, voltadas sobretudo para as manchetes e os subtítulos, com ênfase em um único caderno, seja no noticiário local, no colunismo, no obituário ou no esporte, como muita gente costuma fazer. Sua leitura era concentrada e lenta, com caneta em punho e o pensamento em todos os membros da família. Passava por todos os cadernos com bastante atenção e tentava vislumbrar algum texto ou notícia que pudesse ser útil ou tivesse alguma ligação com um membro da família. Se os encontrasse, ele os circulava com a caneta, puxava uma seta e fazia suas indicações ou comentários, escrevendo, às vezes, o nome do destinatário.
“Como eu participava de muitos programas ambientais, qualquer coisa que saísse relativa ao meio ambiente ele já circulava para mim, às vezes com alguns comentários”, lembra Leandro.
FILTRO
Mas se não fosse para Leandro, era para qualquer outro membro da família. Como sabia os assuntos preferidos de todos, ele já fazia uma espécie de filtro para que ninguém perdesse tempo com leituras inúteis.
Assinalava matérias para Ícaro, seu genro, médico ligado à Prefeitura de Franca. Fazia indicações para Mirian, para os sobrinhos e até mesmo para os filhos que estavam fora de Franca.
De sua parte, gostava muito dos textos da colunista Lúcia Helena Brigagão. De acordo com Selma, ele não perdia nenhum texto da Lúcia, pois gostava muito das coisas e do jeito que ele escrevia.
E dessa maneira o costume foi se enraizando em toda a família. Até mesmo o filho mais brincalhão, Milton de Oliveira Lourenço, que trabalha e vive em Recife, está sempre lendo o Comércio da Franca pela internet e enviando e-mails e comentários para a família, geralmente mais divertidos do que críticos.
“Às vezes ele acha alguma coisa que me interessa no jornal e me manda por e-mail lá de Recife e eu percebo que ‘comi bola’ por aqui”, se diverte Leandro.
Myron de Oliveira Lourenço, outro filho de Myron e Selma, engenheiro que continuou em Belo Horizonte, também gosta de comentar o Comércio com a família por e-mail. Apesar de ser mais crítico e preferir os assuntos políticos ou mais polêmicos, como o viaduto que está sendo construído na cidade, por exem-plo, ele também não deixa de enviar seus e-mails para a família e fazer seus comentários.
Mas como a vida tem lá seus sortilégios, infelizmente a família Lourenço ficou agora sem o seu mais importante filtro para a leitura do jornal. Apesar da leitura de Selma, o jornal agora fica “lim-pinho” e sem anotações de qualquer tipo.
Para Lean-dro, principalmente, o jornal perdeu um pou-co do “sabor” que tinha antes. Também leitor assíduo do Comércio da Franca, mas pela internet, ele só lidava com o exemplar impresso por conta do avô.
Depois do falecimento de Myron, mexendo em seu escritório em busca de lembranças e histórias que atenuassem a perda e revigorassem sua memória, a família encontrou um exemplar intacto de uma edição especial de aniversário do Comércio da Franca, datada de 1945, ano em que Myron e Selma nem haviam se casado.
“Esse exemplar ele deve ter conseguido na casa do Paulo Caleiro, que gostava muito de jornais. Nessa época nós nem éramos casados, mas ele vinha a Franca porque sua mãe morava aqui”, lembra Selma.
Gentilmente, Leandro esteve na Redação do Comércio e entregou a relíquia para que ela fosse arquivada no Centro de Documentação do jornal.
Como geralmente somos responsáveis por tudo aquilo que cativamos, como disse A. S. Exupéry, em seu conhecido Pequeno Príncipe, talvez agora Leandro retorne ao impresso para quem sabe, com o tempo, ocupar o espaço dei-xado pelo avô e continuar seu trabalho de filtro jornalístico para toda a família, já que ele sempre foi um dos principais alvos desse filtro.
Quem sabe.
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