A perda de dentes é cruel, mas a evolução permitiu preservá-los, apesar do açúcar e doença periodontal. Os escandinavos nos ensinaram como é viver em uma sociedade sem cárie e doença periodontal, mas dentes continuam sendo perdidos pelo traumatismo.
ANTÍGENOS SEQUESTRADOS
Os dentes aderidos ao osso precisavam amortizar as forças na mastigação e assim se criou o ligamento periodontal, uma fina membrana de tecido fibroso entre osso e dente. Antropologicamente dentes vieram dos ossos maxilares, mas depois que se separaram e o organismo não reconhece mais os dentes como parte de si mesmo.
Nossa individualidade é dada e preservada pelo sistema imunológico que sabe tudo sobre todas nossas proteínas. No processo formador e aperfeiçoador do organismo, três locais ficaram fora do autorreconhecimento pelo sistema imunológico: os espermatozoides, a tireoide e os dentes.
Essas proteínas que não são “nossas” são chamadas de imunogênicas, antigênicas ou de “antígenos sequestrados”. O vírus da caxumba pode inflamar os testículos e lesar os túbulos onde se formam os espermatozoides. Expostos às células e substâncias do sistema imunológico pode-se destruí-los, gerando esterilidade do portador. Na tireoide, se expuser as proteínas tireoidianas antigênicas, o sistema imunológico acaba com ela.
NOS DENTES É INCRÍVEL
Os antígenos sequestrados da dentina estão bem “protegidos” ou escondidos. Na raiz os cementoblastos do ligamento periodontal (1) os escondem por não escutarem os mediadores ósseos. No ligamento também temos uma rede de epitélio (2) que secreta a substância EGF, que estimula o osso a reabsorver 24h por dia, afastando-o do dente. Dentro do dente, a polpa com seus odontoblastos (3) também “escondem” a dentina do sistema imunológico.
Temos um ponto muito frágil que é o colo do dente que fica junto à inserção gengival. Entre o esmalte e o cemento que recobre a raiz, se têm microáreas ou janelas com exposição das proteínas antigênicas da dentina (4), recobertas por um gel da matriz extracelular da gengiva.
Estas quatro estruturas são chaves para entender por que o traumatismo induz reabsorções. 1ª e 2ª: Pode-se eliminar os cementoblastos que recobrem a raiz e destroem a rede epitelial de Malassez que secreta o EGF e afasta o osso do dente, 3ª: Pode levar a morte de odontoblastos na polpa, ou, 4ª: As forças traumáticas podem se concentrar no colo do dente, dissolvendo o gel gengival que recobre as janelas de dentina, expondo-a.
O traumatismo libera os antígenos sequestrados do dente e, respectivamente, provoca: 1 e 2: Anquilose Alveolodentária seguida de Reabsorção por Substituição, 3. Reabsorção Interna e 4. Reabsorção Cervical Externa, às vezes, erroneamente chamada de Invasiva.
REFLEXÃO FINAL
A - Quando se diz traumatismo se refere a concussões por pequenas pancadas em lutas, esportes e acidentais em que o dente fica ligeiramente sensível alguns minutos. Abrir cervejas com dentes provocam concussões; cortar fios, afastar e separar os dentes também.
B – Se o traumatismo mover só um pouco é subluxação, ou muito, é luxação. Se sair um pouco do local, extruindo ou não o dente do alvéolo, são formas mais intensas de traumatismo. As vezes, o dente sai totalmente do alvéolo e precisa reimplantá-lo.
C – A concussão, o mais sutil dos traumatismos, e até as avulsões, podem provocar os mesmos tipos de reabsorções, com a mesma probabilidade. A diferença está no paciente, que quase sempre esquece de contar ao profissional as concussões que ocorrem no dia a dia e cujos efeitos são iguals aos dos traumatismos severos. Em tempo: - O trauma oclusal e movimento ortodôntico não são considerados traumatismos dentários.