Mas, afinal de contas, o que quer dizer "ilações", que a gente ultimamente tem ouvido com frequência? Uma definição que encontramos na web é: Uma ilação é simplesmente uma conclusão ou dedução que fazemos com base em informações, fatos ou premissas anteriores. A sua veracidade depende inteiramente da qualidade dos fatos e da lógica utilizada.
O que vemos hoje - e não é nenhuma novidade - é que ilação muitas vezes é usada como um eufemismo para se referir a uma mentira. Ilações, mentiras ou fake news são elementos utilizados para alimentar uma falsa realidade que se quer cultivar em determinados momentos, algo próximo do conceito de pós-verdade. Quanto maior o alcance, maiores os efeitos que isso terá em uma sociedade, por exemplo. Maior o poder econômico daquele que divulga as mentiras, maior o alcance, maior o estrago. Alguns são pagos -bem pagos- para produzir mentiras, outros têm que dar sequência a elas para preservar seu emprego e outros simplesmente as saem repetindo porque vão ao encontro de suas crenças, de sua maneira de enxergar a realidade. Vamos dar um exemplo de como são produzidas algumas mentiras.
O jornal O Estado de S. Paulo -o Estadão- trouxe no dia 02.09.26 a manchete "Mensagens escancaram a relação promíscua entre Vorcaro e Moraes." Se procurarmos uma definição para "relação promíscua" na net, por exemplo, encontraremos "Uma relação promíscua é uma ligação entre pessoas, grupos ou instituições que é confusa, desonesta, imoral ou que mistura interesses de forma inadequada." O Jornal O Estado de S. Paulo, portanto, afirma que existe uma relação promíscua entre o banqueiro Vorcaro (atualmente encarcerado) e o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Para ilustrar a primeira página, uma foto grande do ministro citado com a mão cobrindo a boca, uma feição de acuado, como alguém descoberto depois de ter feito uma coisa errada... Do lado direito, um texto menor com o título -bem visível-: "Moraes tem de sair do supremo." A mensagem do jornal já está dada. A mentira foi contada, e as atenções agora se voltam para ela.
Agora vejamos o texto que acompanha a manchete. Nele as informações são apresentadas por meio de expressões que mostram a falta de veracidade do que foi afirmado como verdade, como "Mensagens... expõem relação que pode levar a investigação oficial do magistrado do STF.", "As mensagens..., sugerem que, em 15, de novembro de 2025, Vorcaro consultou Moraes sobre o risco de...", "Também há indícios de que Vorcaro e Moraes tiveram encontros." "Mensagens sugerem ainda que o banqueiro pediu ao ministro que interviesse junto ao diretor geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao PGR, Paulo Gonet, para travar investigações." Vamos observar essas expressões: "pode levar", sugerem que, "há indícios de que", "sugerem ainda que". São expressões usadas para dizer que não se está falando de fatos. De factual, por enquanto, nesta história toda não há praticamente nada. O que existe -dizem- é que foram encontrados no celular do banqueiro preso registros de mensagens supostamente enviadas para um número identificado no aparelho -e só lá- como sendo do ministro Alexandre de Moraes. As mensagens divulgadas seriam de fato escandalosas e exigiriam uma investigação urgente, se aparecesse também registrada uma resposta, uma interlocução com o suposto destinatário. Mas não consta resposta nenhuma. Não consta conversa nenhuma. Que relação isso mostra? Relação nenhuma. Ninguém precisa provar que é inocente. O ônus da prova cabe a quem alega.
Jornal Folha de S. Paulo, mesmíssima coisa. Editorial: "A Moraes cabe a renúncia." Mentira feita de mentiras... Os maiores veículos de informação, concentrados nas mãos de poucos, subestimam a inteligência de seu público. E o problema é que isso acaba não sendo um problema para eles. Faz parte da história desses veículos, mas é preciso encarar com seriedade essas vilezas, porque elas acabam influenciando e muito na nossa vida. Aproveitando uma frase de Winston Churchill: "Não existe opinião pública, existe opinião publicada." Publicada como se fosse verdade.