Bauru perdeu nesta segunda-feira (31) um dos nomes mais importantes de sua história na área da saúde. Morreu o professor e ortodontista Omar Gabriel da Silva Filho, referência nacional e internacional em Ortodontia e personagem fundamental na trajetória do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC-USP), o Centrinho de Bauru. Ele tinha 71 anos de idade. O velório teve início às 16h desta segunda-feira (31), no Centro Velatório Terra Branca, e o sepultamento ocorrerá nesta terça (1/9), no Cemitério Jardim do Ypê, às 15h.
Mais do que um pesquisador de reconhecida produção científica, Omar Gabriel foi um professor que ajudou a formar gerações de profissionais e um dos principais responsáveis por transformar Bauru em um dos grandes centros mundiais de conhecimento em Ortodontia. Graduado em Odontologia e especialista em Ortodontia pela Universidade de São Paulo (USP), Omar Gabriel fez mestrado em Ortodontia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em Araçatuba. Ao longo da carreira, publicou mais de 200 trabalhos científicos e desenvolveu protocolos de tratamento que passaram a ser utilizados por profissionais no Brasil e em outros países.
No Centrinho, sua trajetória se confundiu com a própria consolidação da Ortodontia Preventiva e Interceptiva. Omar foi fundador e coordenador, entre 1983 e 2010, do Curso de Ortodontia Preventiva e Interceptiva “Professor Omar Gabriel da Silva Filho”, promovido pela Profis (Sociedade de Promoção Social do Fissurado Lábio-Palatal).
O curso tornou-se uma referência na formação de ortodontistas, especialmente pela proposta de diagnóstico e intervenção precoce nas alterações da oclusão. O legado desse trabalho foi posteriormente sistematizado no livro 'Ortodontia Interceptiva – Protocolo de Tratamento em Duas Fases', lançado em 2013 e organizado por Omar Gabriel, Daniela Gamba Garib e Túlio Silva Lara. A obra reúne os conceitos e protocolos desenvolvidos a partir da experiência acumulada durante décadas no curso do Centrinho.
O trabalho científico de Omar alcançou diferentes áreas da Ortodontia, incluindo estudos sobre crescimento facial, desenvolvimento da oclusão, tratamento precoce das más oclusões e biomecânica. Seu nome aparece em publicações científicas de referência e em pesquisas que continuam sendo utilizadas por especialistas. Em 2026, inclusive, um trabalho do qual Omar é coautor passou a integrar a bibliografia oficial de preparação para a prova do American Board of Orthodontics, nos Estados Unidos.
O “filho” de Tio Gastão
A história de Omar Gabriel também é inseparável de uma das figuras mais emblemáticas do Centrinho: José Alberto de Souza Freitas, o Tio Gastão, um dos fundadores da instituição. A relação entre os dois ultrapassava os limites profissionais. Tio Gastão chamava Omar de “filho” e reconhecia nele não apenas um grande ortodontista, mas um dos profissionais que ajudaram a construir a identidade científica e humana do Centrinho.
Em depoimento publicado pela Dental Press em uma homenagem a Omar, Tio Gastão ressaltou a capacidade do ortodontista de continuar participando ativamente da vida profissional mesmo depois das dificuldades provocadas por uma isquemia cerebral. “Pelos olhos ele diagnostica, planeja, orienta”, afirmou na ocasião.
A própria Dental Press já havia definido Omar como um dos maiores nomes da Odontologia brasileira ao dedicar uma edição de sua Revista Clínica de Ortodontia à trajetória do professor. A publicação destacou sua liderança intelectual, sua generosidade na transmissão do conhecimento e sua importância para a formação de novos profissionais.
Mestre que formou mestres
Omar também exerceu papel de destaque na produção editorial científica. Foi editor-chefe da Revista Dental Press entre 2009 e 2010, consolidando sua participação na disseminação do conhecimento produzido pela Ortodontia brasileira. Sua produção acadêmica não se limitou à quantidade. O reconhecimento veio também da capacidade de transformar conhecimento científico em protocolos aplicáveis à prática clínica.
Em 2016, ao homenageá-lo, a Dental Press reuniu depoimentos de colegas e discípulos que ressaltaram justamente essa característica. O professor Leopoldino Capelozza Filho, que foi seu professor na graduação, lembrou a liderança intelectual de Omar e sua disposição em compartilhar e, sobretudo, construir conhecimento.
Outro depoimento, da ortodontista Terumi Okada Ozawa, o definiu como um cientista de grandeza excepcional, mas destacou principalmente o ser humano por trás do pesquisador: alguém sensível, inteligente, generoso e capaz de reunir pessoas ao seu redor. Essa talvez seja uma das marcas mais importantes de sua passagem por Bauru: Omar Gabriel não deixou apenas artigos, livros e protocolos. Deixou discípulos.
E muitos dos profissionais que passaram pelo Curso de Ortodontia Preventiva e Interceptiva levaram consigo não apenas técnicas de tratamento, mas uma maneira de enxergar a Ortodontia, baseada no diagnóstico precoce, no conhecimento científico e na atenção individualizada ao paciente.
Legado que permanece
Omar Gabriel teve sua trajetória profissional interrompida em 2010 por uma isquemia cerebral, justamente quando ocupava posição de destaque na comunidade ortodôntica. Mesmo afastado da atuação convencional, porém, seu nome continuou presente na literatura científica, nos cursos, nos livros e, principalmente, na memória dos profissionais que conviveram com ele.
Em 2012, o Centrinho celebrou os 30 anos do curso que leva seu nome. No ano seguinte, a publicação de Ortodontia Interceptiva consolidou em livro uma parte importante da experiência construída por Omar e seus colaboradores ao longo de décadas.
A obra, com 576 páginas, apresenta protocolos de tratamento em duas fases e aborda temas como distúrbios de irrupção dentária, mordida cruzada posterior, apinhamento, tratamento precoce do Padrão II e tratamento ortopédico do Padrão III. É uma síntese de uma vida dedicada à ciência. Mas talvez o melhor retrato de Omar Gabriel esteja justamente naquilo que não pode ser medido em número de publicações ou citações acadêmicas.
Está nos profissionais que ele formou. Nos pacientes beneficiados pelos protocolos que ajudou a desenvolver. Nos colegas que aprenderam com ele. Nos pesquisadores que deram continuidade às suas ideias. E na história do Centrinho, onde seu nome se tornou parte permanente da instituição.
Bauru se despede de um de seus grandes mestres. A Ortodontia brasileira perde um de seus maiores pesquisadores. E centenas de profissionais, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, perdem aquele que um dia lhes ensinou não apenas como tratar uma má oclusão, mas como buscar conhecimento, questionar conceitos e compartilhar o que se sabe.