Estes 122 dias que faltam para acabar o ano prometem. Além do temido El Niño, outra realidade bate à nossa porta - as agitadas eleições que vem com promessa de dar o que falar, haja visto as contínuas disparidades que se conjugam como efeito rebote de um não idealismo, e nos coloca refém de uma campanha onde existem os que falam de si ao atacar o outro para
se esconder, e os que estão empenhados em projetos estruturais a favor da coletividade. O diálogo que deveria incrementar o desejo de saber mais sobre sociedade, ato que deveria estimular o eleitor a pensar historicamente sobre costumes, direitos e deveres, saúde e educação, ao mesmo tempo que nos distancia da causa política, acaba levando o eleitor a polarizar lados como forma de defesa frente a própria ignorância.
Fruto disso, temos que desenvolver a capacidade de distinguir quem é quem acreditando no próprio discernimento para bater o martelo e continuar votando, de preferência, a favor do povo. A política virou um tablado que nos coloca ladeira abaixo para pensar um debate de qualidade, e padecemos na mão de quem ainda não sabe onde colocar sua esperança de voto
nas próximas eleições. Filiação não é sinal de nada, mas pode ameaçar o discernimento ante o perigo de nos colocar estúpidos frente aos fatos, podendo se configurar num danoso ato
para o nosso país. Não se vota em partido, mas sim em pessoas com reputação idônea que trabalham em grupo pelo povo e para o Brasil.
Estando diante das forças irresistíveis da política, eu penso no quanto estamos dispostos a enxergar com verdade em quem devemos confiar nas próximas eleições, ou melhor dizendo, movidos por qual paixão ou consumidos por uma cólera avassaladora, a que ponto estamos dispostos a construir aquilo que nos é tão caro?
Há milênios buscamos compreender as forças que nos subjugam, e de certa maneira, olhando o passado é que deveríamos votar, e nas reflexões da psicanálise, poderíamos investigar o porquê temos tanta dificuldade de enxergar o óbvio, ou seja, o que de fato está por trás do desconhecido em nós que nos assombra e dificulta pensarmos com clareza?
Infelizmente o debate continua como o velho bordão de atacar para fugir da qualidade e com dificuldade de olhar o próprio eu para enxergar o que nos paralisa e nos faz cegos. Política deve ser feita com ética, desejo, verdade, e muito trabalho. E para quem ainda tem dúvida em quem votar, leia, assista filmes no tema, vá ao teatro, veja debates de qualidade, vá a convenções onde os políticos expõem seus projetos, observe gráficos idôneos, revisite a história do nosso país e da humanidade, elas têm muito a nos ensinar e pode auxiliar na hora de votar.
Então, que venha o El Niño, seus ventos já estão a caminho.
Música “Ilumina”, Maria Bethânia.
A autora é psicanalista, especialista pela USP – Departamento de Psicologia, Psicóloga Clínica formada pela USC, responsável pelas páginas @zogheibclaudia, @cinemaeartenodiva, @livros.no.diva, @auguri_humanamente