OPINIÃO

A questão eleitoral e as mulheres

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

A política deve definir o porto de destino, mas recomenda-se que o homem com a responsabilidade pelo leme saiba de navegação. O risco é uma versão editada de "Alice no País das Maravilhas": - "Não sei para onde ir", exclama a Rainha de Copas. - "Não se preocupe", responde o cocheiro. - "Eu não sei mesmo como chegar lá".

As próximas eleições têm tudo para acabar em mais do mesmo. A renovação do Parlamento será baixa com a decisão dos partidos de reservar recursos só para quem é candidato à reeleição. A amplitude das emendas orçamentárias de livre distribuição pelos deputados e senadores está hoje na casa dos R$ 60 bilhões. Prefeitos fidelizados com os parlamentares que beneficiaram as administrações locais com emendas, estão fechados com aqueles que lhes garantiram o paraíso aqui na terra.

Na disputa pela Presidência da República observa-se a luta de Lula para evitar maiores desgastes com o Marcola, apelido do seu ex-chefe do gabinete. Marco Aurélio Ribeiro, o segundo homem na hierarquia do Palácio do Planalto está enredado com a empresária ligada a Lulinha num contrato de venda de canabidiol ao Ministério da Saúde. Nada a ver com o outro Marcola, chefe do PCC Marcos Camacho, guardado em presídio federal.

Advogados da campanha de Lula prometem processar e pedir reparação dos que relacionarem o candidato ao escândalo do INSS. Por sua vez, a marquetagem do presidente não quer que os eleitores se esqueçam das "rachadinhas" e, mais recentemente, do filme de R$ 160 milhões patrocinado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para contar a vida do pai do Flávio. Como disse um deputado em Brasília: "Não será uma eleição. Será um duelo. Dez passos para cada lado".

O chato eleitoral é o personagem que tenta transformar qualquer conversa em discussão política para defender seu candidato. Assim como sempre haverá gente que enfia o dedo no nariz, não há como evitar que ele exista. Temos vias alternativas com candidatos que até dizem coisa com coisa. O difícil é convencer o eleitor de que não se trata de viabilidade em eleição polarizada. Consolidou-se, no Brasil, a ideia de que só importa quem vence ou o que vence. Um terceiro candidato pode qualificar o debate, mostrar ao eleitor que é possível escapar desse atoleiro do populismo de esquerda e da vassalagem a Bolsonaro. Lula e Bolsonaro II disputam eleições para satisfazer projetos pessoais de poder.

A disputa pelo voto feminino ganhou espaço central na corrida presidencial. Mulheres representam 52,8% do eleitorado, mas continuam sub-representadas entre os candidatos: são 34,8% das candidaturas deste ano. Poucas com possibilidades de êxito, pelos fatores já relatados. Lula aposta na ampliação de políticas públicas, na proteção contra a violência, na redução da jornada de trabalho e na igualdade salarial. Flávio, concentra a agenda no empreendedorismo, na autonomia financeira, no acesso ao crédito, na capacitação das mulheres, em creches e mecanismos tecnológicos de proteção - tipo Liga 180, botão de emergência, delegacias on-line, centrais de monitoração de tornozeleiras eletrônicas para agressores submetidos a medidas protetivas.

Lula fez até as pazes com o presidente do Senado Alcolumbre, na tentativa de aprovar antes da eleição, a jornada semanal de 40 horas para todos, sem redução salarial. Segundo o IBGE as mulheres já desempenham, em média, 54,4 horas semanais entre trabalho remunerado e não-remunerado. A Lei de Igualdade Salarial, aprovada em 2023, até agora não produziu efeito. Elas recebem 27,2% menos que os homens em funções idênticas (IBGE).

A Lei Maria da Penha vez 20 anos e somente agora o STF ampliou a proteção da mulher contra o agressor mesmo que com ele não tenha relação doméstica, familiar ou íntima. Falta ainda a lei preservar a renda da mulher que precisa se afastar para sua segurança e perde o emprego.

Mentiu o poeta ao versejar: "A mão que balança o berço é a mão que manda no mundo".

 

Comentários

Comentários