INFRAESTRUTURA

Data centers colocam Jundiaí na rota da inteligência artificial

Por Ariadne Gattolini |
| Tempo de leitura: 8 min
Divulgação
Novos data centers estão previstos na Região Oeste de Jundiaí
Novos data centers estão previstos na Região Oeste de Jundiaí

Jundiaí começa a ocupar uma posição estratégica no mapa da infraestrutura digital brasileira. A presença de dois data centers da Ascenty em operação, o desenvolvimento de um campus da Scala Data Centers e o projeto da Casa dos Ventos previsto para a cidade mostram que o município passou a reunir ativos considerados essenciais para empreendimentos que sustentam a computação em nuvem, a inteligência artificial e o processamento de grandes volumes de dados. Localizada entre São Paulo e Campinas, conectada às principais rodovias do Estado e atravessada por extensas redes de fibra ótica, a cidade encontra agora a possibilidade de acrescentar uma nova vocação tecnológica ao parque industrial e logístico construído ao longo de décadas.

De acordo com a Prefeitura de Jundiaí, o município conta atualmente com um data center da Ascenty em operação na região do Eloy Chaves. Há ainda um empreendimento da Scala Data Centers em fase de planejamento e desenvolvimento técnico, no bairro Medeiros, e um projeto da Casa dos Ventos previsto para a região do Fazenda Grande. A movimentação ocorre em um contexto regional mais amplo, no qual cidades próximas também recebem investimentos destinados a atender à expansão dos serviços digitais e, especialmente, às novas demandas de capacidade computacional provocadas pelo avanço da inteligência artificial.

Os data centers funcionam como grandes estruturas de armazenamento, processamento e circulação de informações. São eles que sustentam desde serviços bancários, plataformas de comércio eletrônico e sistemas industriais até aplicações de inteligência artificial, serviços de saúde, telecomunicações e ambientes de computação em nuvem. Para operar sem interrupções, exigem conectividade de alta capacidade, fornecimento estável de energia, sistemas redundantes, segurança física e digital e condições logísticas que permitam a instalação e a manutenção de equipamentos altamente especializados.

Jundiaí reúne parte relevante dessas condições. Além da posição geográfica entre dois dos maiores polos econômicos do país, a cidade dispõe de uma infraestrutura consolidada de transportes, mão de obra qualificada, universidades, empresas de diferentes setores e uma rede de conectividade formada por estruturas públicas e privadas. Segundo o presidente da Associação de Tecnologia e Inovação de Jundiaí, a ATIJ, Rodrigo Malagoli, os mais de 500 quilômetros de fibra ótica frequentemente associados ao município correspondem apenas à rede pública administrada pela Cijun (Companhia de Informática de Jundiaí). A ela se somam as redes das operadoras privadas e os grandes backbones nacionais que atravessam a região, ampliando a capacidade e a redundância necessárias às operações digitais de missão crítica.

Para Malagoli, a infraestrutura digital começa a exercer um papel semelhante ao desempenhado pelas rodovias Anhanguera e Bandeirantes no processo de industrialização de Jundiaí. Se, no passado, a facilidade de circulação de pessoas e mercadorias determinou a instalação de fábricas, centros de distribuição e empresas de logística, agora a disponibilidade de fibra ótica, energia e capacidade de processamento passa a orientar as decisões de companhias que trabalham com software, inteligência artificial, dados, segurança digital e serviços em nuvem.

“Os data centers são apenas a ponta de uma cadeia muito maior. Ao redor deles surgem oportunidades para empresas de inteligência artificial, computação em nuvem, cibersegurança, desenvolvimento de software, análise de dados, Internet das Coisas, automação, integração de sistemas e serviços especializados em tecnologia”, afirma o presidente da ATIJ. Segundo ele, a presença dessa infraestrutura também faz com que empresas dependentes de alta disponibilidade, baixa latência e grande capacidade de processamento passem a enxergar Jundiaí como um local estratégico para instalar ou ampliar suas operações.

Esse efeito pode ultrapassar os limites físicos dos próprios data centers. Embora essas instalações sejam altamente automatizadas, sua implantação e operação movimentam uma cadeia que envolve construção civil, engenharia, equipamentos elétricos, telecomunicações, refrigeração, segurança, manutenção e serviços tecnológicos. Ao mesmo tempo, a proximidade da infraestrutura pode favorecer a chegada de centros de desenvolvimento de software, empresas de inteligência artificial, fintechs, healthtechs, laboratórios de pesquisa, startups e negócios ligados à indústria 4.0.

“O impacto vai muito além da infraestrutura física: ele fortalece toda a economia baseada no conhecimento”, destaca Malagoli. Para o dirigente, a presença de empresas como Ascenty e Scala amplia a visibilidade de Jundiaí no cenário nacional e aumenta a confiança de investidores interessados em atividades de alto valor agregado. O desafio, entretanto, será fazer com que a cidade não seja apenas o endereço dos servidores, mas consiga capturar os empregos qualificados, a pesquisa, o desenvolvimento de produtos e as oportunidades empresariais que podem gravitar ao redor dessas estruturas.

É nesse contexto que Malagoli defende a criação de um Parque Tecnológico ou de um Distrito de Inovação em Jundiaí, construído por meio da articulação entre Prefeitura, universidades, iniciativa privada e entidades do setor. “A infraestrutura já está chegando. Agora precisamos criar um ambiente que estimule pesquisa, desenvolvimento, empreendedorismo e a permanência dos talentos em Jundiaí”, afirma.

Novos projetos

O projeto da Scala Data Centers insere-se justamente nesse novo ciclo. Segundo nota encaminhada pela companhia, os planos de expansão em Jundiaí fazem parte da estratégia de ampliação de sua infraestrutura digital no Brasil e buscam atender à crescente demanda por serviços digitais, computação em nuvem e inteligência artificial. O empreendimento está em fase de planejamento e desenvolvimento técnico, sem divulgação, até o momento, da capacidade instalada, do valor dos investimentos, do cronograma das obras ou da previsão de inauguração.

Uma das etapas estruturais, no entanto, já foi concluída. A subestação do Campus Jundiaí, identificada como SSUBJD01, foi energizada em junho de 2025, marco considerado fundamental para o desenvolvimento futuro do complexo.

A Scala afirma que a escolha de Jundiaí levou em consideração a localização privilegiada entre importantes centros econômicos, a elevada conectividade por fibra ótica, a infraestrutura logística consolidada e a disponibilidade de energia confiável. O futuro campus deverá atender empresas com grande demanda por processamento e armazenamento de dados, entre elas provedores globais de computação em nuvem, os chamados hyperscalers, além de aplicações de inteligência artificial e organizações dos setores financeiro, industrial, de telecomunicações, saúde e varejo. Por questões contratuais, a companhia não divulga a identidade de seus clientes.

O impacto econômico potencial de empreendimentos dessa dimensão é significativo. Estudo desenvolvido pela Fundação Getúlio Vargas e publicado em junho de 2026 estima que um data center de hiperescala com aproximadamente 100 megawatts possa movimentar R$ 2,43 bilhões em produção, acrescentar R$ 1,48 bilhão ao Produto Interno Bruto e gerar cerca de 12,5 mil empregos diretos, indiretos e induzidos ao longo de sua cadeia econômica. A Scala ressalta, porém, que esses números ilustram o potencial geral do setor e não representam uma projeção específica para Jundiaí, já que os dados do projeto local serão divulgados somente com o avanço do empreendimento.

Sustentabilidade

Se os benefícios econômicos ampliam o interesse dos municípios, o elevado consumo de energia associado aos data centers também exige atenção. As estruturas operam 24 horas por dia e concentram milhares de equipamentos que precisam permanecer conectados e refrigerados, o que torna indispensável discutir a origem da eletricidade, a eficiência dos sistemas e seus possíveis impactos sobre o abastecimento regional. Para Malagoli, a expansão deve ser tratada com transparência e não pode separar desenvolvimento econômico de responsabilidade ambiental.

“Os data centers possuem uma demanda energética elevada, e esse debate precisa acontecer de forma transparente. Desenvolvimento e sustentabilidade não podem caminhar separados”, afirma. O presidente da ATIJ compara o momento atual às preocupações surgidas quando grandes empresas industriais ampliaram suas operações em Jundiaí. Ele cita o caso da Coca-Cola, cuja expansão levantou questionamentos sobre o consumo de água, mas também estimulou investimentos em eficiência e reaproveitamento de recursos. “Com os data centers, acredito que o caminho seja o mesmo: planejamento, investimentos em eficiência energética, incentivo ao uso de fontes renováveis e diálogo constante com a sociedade. O importante não é simplesmente crescer, mas crescer de forma inteligente e sustentável.”

A sustentabilidade ocupa espaço central na proposta apresentada pela Scala. A empresa informa que, desde sua fundação, opera com energia 100% renovável certificada, contratada no Mercado Livre de Energia por meio de acordos de longo prazo vinculados a fontes hidrelétricas, eólicas e solares.

Outro aspecto relevante está no sistema de refrigeração. Segundo a companhia, seus projetos adotam tecnologias em circuito fechado que eliminam o consumo de água para resfriar os equipamentos e permitem alcançar WUE igual a zero. O indicador, conhecido como Water Usage Effectiveness, mede a eficiência hídrica dos data centers e ganhou importância diante da necessidade de conciliar a expansão da economia digital com a preservação dos recursos naturais.

A Ascenty, desde a sua fundação, tem seu pilar na sustentabilidade.  Ela tem suas operações certificadas como carbono neutro, por meio de sistemas de resfriamento em circuito fechado e projetos avançados capazes de combinar alta densidade computacional e eficiência energética. 
O reúso de água permanente para o resfriamento é feito em circuitos fechados e o consumo anual chega a ser parecido com o de quatro residências comuns, com nove pessoas.

Ascenty produz 100% de sua energia de fontes renováveis - a maioria advinda da energia solar e eólica. E recentemente investiu na construção de 32 km em  linhas de transmissão para o campus de Vinhedo. “Há 15 anos, quando inauguramos a Ascenty, a transmissão de energia não era uma preocupação, hoje ela está em nosso radar”, afirmou Chris Torto, CEO e fundador da empresa, em recente entrevista ao Jornal de Jundiaí.

Segundo Chris Torto,  a escolha por nossa região é estratégica. “Desde que vim para o Brasil, São Paulo representa 40% do PIB brasileiro. Nossa escolha por esta região se dá por conta da localização, conectividade, mão de obra especializada e disponibilidade de áreas.”

A expansão dos data centers, portanto, coloca Jundiaí diante de uma oportunidade que combina desenvolvimento econômico, inovação e reposicionamento estratégico. A cidade tem condições de utilizar a infraestrutura digital como ponto de partida para atrair empresas, formar profissionais, aproximar universidades do setor produtivo e criar negócios relacionados à inteligência artificial, à segurança da informação e à análise de dados. Para isso, será necessário integrar políticas de qualificação, incentivo ao empreendedorismo, planejamento energético e sustentabilidade.

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