OPINIÃO

A dignidade do ócio ao alcance de todos

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

O tema atualmente em debate no Congresso Nacional visa alterar o sistema de trabalho 6 X 1, modelo onde o trabalhador trabalha 6 dias consecutivos e tem o direito a 1 dia de descanso. A proposta reduz a jornada máxima de 44 horas para 40 horas semanais, garantindo dois dias de folga sem redução de salário. Desde a Revolução Industrial, no século 18, "o trabalho dignifica o homem". O ocioso é vagabundo. Passando por Taylor e Ford, a organização do trabalho reduziu o homem a uma máquina, a ponto do Estado reconhecer a necessidade de limitar os exageros, para salvar o capitalismo.

Para os gregos antigos, trabalhador era um escravo ou um cidadão de segunda classe. As atividades não-físicas como a política, o estudo, a poesia e a filosofia eram "ociosas", ou seja, expressões mentais dignas somente à elite. O ócio pode se transformar em violência, neurose, vício e preguiça, mas pode também se elevar para a arte. A criatividade e a liberdade. É no tempo livre que passamos a maior parte de nossos dias e é nele que devemos concentrar nossas potencialidades. Sócrates dizia que "para ser sábio é preciso ser ocioso".

Saímos de um mundo "industrial" e já estamos dando adeus ao "pós-industrial" robotizado. Partimos para sistemas de Inteligência Artificial capazes de operar com autonomia após receber instruções iniciais de humanos. No entanto, a velha sociedade continua a viver segundo a organização e o ritmo da idade industrial. Ao longo de uma vida se estuda 15 ou 20 anos, para depois trabalhar durante 30 ou 35 anos e fazer bem pouco ou quase nada naquele tempo que nos resta antes de morrer. Com o advento das novas tecnologias, os empregos desaparecem e tardam a serem compensados com novos tipos de atividades. Marx assim entendia em 1844: "Como o operário foi degradado a ponto de tornar-se uma máquina, a máquina pode se apresentar como sua concorrente".

As máquinas, por mais sofisticadas e inteligentes que sejam, não poderão substituir o homem nas atividades criativas. Portanto, a aventura de buscar trabalho terá maior probabilidade de sucesso quanto mais conhecimentos o candidato tiver e for capaz de oferecer serviços do tipo intelectual, científico e artístico, enfim, adequados às necessidades cada vez mais variáveis e personalizadas dos consumidores.

Semana passada a OpenAI, laboratório norte-americano de pesquisas de Inteligência Artificial, deixou o mundo preocupado ao informar que alguns dos seus modelos de IA mais avançados agiram por conta própria e invadiram uma startup, após a empresa perder o controle sobre eles durante um teste de segurança. A própria OpenAI classificou o incidente como "sem precedentes". Ferramentas ofensivas autônomas impulsionadas por IA já não são algo teórico. Por paradoxal, só com a velocidade humana poderemos disciplinar a velocidade da máquina a fim de que ela nos seja útil e solucione problemas, em vez de criá-los.

A informática se desmembrou em telemática, que garante que dispositivos enviem e recebam informações. A filha mais nova, a IA, já precisa de algumas palmadas pedagógicas para deixar de fazer o que não deve. Só o humano é capaz de manipular a informação através do seu uso combinado com o computador. Fora daí, nenhuma empresa ou instituição chega a algum lugar nos tempos modernos. É mais fácil inventar progresso do que administrá-lo. As novas conquistas exigirão uma reestruturação dos sistemas políticos, sociais e psicológicos.

Só a tecnologia dá conta da escassez, das tradições retrógradas, do autoritarismo e do cansaço físico. O futuro pertence àqueles que serão capazes de usar mais a cabeça do que as mãos. Domada a Inteligência Artificial, os humanos terão, enfim, a felicidade do "ocium cum dignitate", o ócio prazeroso ao qual Cícero se referia em 140 a.C.

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