OPINIÃO

A Copa, hinos e canções

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

O Hino Nacional Brasileiro foi eleito o mais bonito do mundo pelo The New York Times, em um ranking de 48 seleções participantes da Copa do Mundo de Futebol. O jornal classificou a canção como uma obra-prima, destacando a introdução instrumental de 28 segundos e o foco em exaltar a pátria em vez de guerras.

O compositor e pianista norte-americano Louis Gottschalk, já em 1831 declarava-se apaixonado pela música de Francisco Manoel da Silva, inicialmente destinada a celebrar a abdicação de D. Pedro I. Gottschalk compôs a "Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro", pouco tocada por aqui, mas gravada pela Sinfônica de Berlim, pela Filarmônica de Nova York - com tiro de canhão -, e pelos nossos pianistas Arthur Moreira Lima, Nelson Freire e Eudóxia de Barros. Compõe a peça uma série de variações intensas e brilhantes sobre a melodia do hino. A letra do poeta Joaquim Osório Duque Estrada é cheia de hipérbatos, como os gramáticos chamam as figuras de linguagem caracterizadas pelas alterações da ordem direta dos termos das orações.

No meu tempo de colégio, a professora de Português exigia dos alunos interpretações gramaticais e lúdicas da letra de Duque Estrada. "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas..." - Onde está o sujeito? - perguntava a d. Esmeralda. O vocabulário arcaico e de difícil compreensão afasta o povo. "Brado retumbante" (grito forte que ecoa), "raios fúlgidos" (brilhantes), "do que a terra, mais garrida" (bela, exuberante). Nosso hino é longo. Tempo é valioso na televisão. Em jogos do Brasil, federações estrangeiras de esportes ordenam interrompê-lo em plena Pátria amada, idolatrada. Salve! Salve! Para modernizar a letra e providenciar uma versão curta para essas ocasiões, seria necessária uma lei aprovada pelo Congresso. Então, fica como está, assim mesmo admirado.

O segundo hino mais bonito, que arrepia os pelinhos patrióticos dos franceses é a "Marselhesa", marcha militar de Rouge de Lisle, de 1792. A letra é de uma violência própria dos tempos da Revolução Francesa. Fala em "estandarte ensanguentado", "rugir ferozes soldados" e "degolar vossos filhos e vossas mulheres". E sentencia: "Que o sangue impuro banhe o nosso solo".

Gosto muito da Deutschlandied (A canção dos alemães), com melodia extraída do Quarteto do Imperador, de Joseph Haydn, em 1757. Diz que a união, a justiça e a liberdade são a garantia da felicidade. Tiraram o "Alemanha acima de tudo", que poderia remeter à crença na superioridade germânica - algo imperdoável em pleno período de desnazificação.

O Hino da Argentina é uma marcha patriótica, sem muito brilho: "Sejam eternos os louros que soubemos conseguir, coroado de glória vivemos, ou juremos com glória morrer". Outro hino que iremos ouvir na final da Copa é o da Espanha. A marcha real não possui letra oficial. Um dos únicos hinos sem libreto, junto com o da Bósnia e Hezergovina, Kosovo e San Marino. A justificativa espanhola baseia-se na diversidade cultural do país. Seria difícil a criação de um texto que una bascos, galegos, catalães e aragoneses sem gerar controvérsias políticas.

A torcida inglesa, com um hino que badala o rei ou a rainha, conforme o turno, elegeu a canção "Wonderwall" (Parede de Maravilhas) de Noel Gallagher, da banda Oasis. O título corresponde a um porto seguro ou a uma pessoa que o inspira, o apoia e o salva dos seus próprios conflitos internos. "Hoje será o dia em que vão jogar tudo de volta em você". A música, a mais tocada no mundo atualmente, tornou-se um grande símbolo de identidade e orgulho nacional. Sem querer, o bitpop se popularizou para celebrar a cultura britânica. A torcida e os jogadores começaram a cantar juntos, criando um ritual que se repetiu a cada triunfo. Os argentinos também têm a sua canção, "La Quarta Estrella", do compositor Palmito, mistura de paixão pela seleção e homenagens a Maradona, à última Copa de Messi e pelas Malvinas. Querem a quarta estrela na camisa, e a merecem.

 

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