COLUNISTA

Para diminuir o tsunâmi de câncer

Por Alberto Consolaro | Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
| Tempo de leitura: 3 min
Sem comunicação direta com a sociedade, via mídia, o tsunâmi de câncer continuará a crescer (obra de Katsushika Hokusai)
Sem comunicação direta com a sociedade, via mídia, o tsunâmi de câncer continuará a crescer (obra de Katsushika Hokusai)

Temos que mirar em bons exemplos. O câncer de intestino representa um caso de divulgação que ampliou sua prevenção via colonoscopia, para detectar os pólipos e formas iniciais. Usar a mídia para esta ampliação de consciência é a saída.

O câncer de lábio inferior era o mais frequente na boca, até algumas décadas atrás. Hoje é bem menos frequente e o câncer de margem lateral de língua e soalho bucal, passou a ser o mais importante.  Esta redução foi pelos esforços até hoje, da Sociedade Brasileira de Dermatologia e da Sociedade Brasileira de Estomatologia. O que tínhamos antes e o que temos hoje, é uma mudança brutal.

Segundo a OMS, estamos iniciando um tsunami de câncer no mundo. Singelamente, para que isto seja atenuado na boca, poderíamos distribuir TRÊS INFORMAÇÕES BÁSICAS em todas as mídias, desde internet até simples cartazes nas escolas e unidades de saúde.

AS TRÊS INFORMACÕES

1ª) – Placas brancas e feridas na margem da língua e soalho bucal devem ser analisadas todas as vezes que o paciente for atendido e, se for o caso, fazer imediatamente biopsias incisionais para que patologistas possam ver ao microscópio se são cancerizáveis, ou se são carcinomas, a forma mais comum de câncer na boca.  
Cânceres são indolores e aparecem nas margens linguais, e se não usarmos espelhos ou espátulas para examiná-las, podem ficar escondidos. Eu prefiro segurar a ponta da língua como uma gaze e tracionar leve e firmemente para frente e examinar ambos os lados.

As vezes o paciente relata que o primeiro sinal foi um sangramento “inexplicável”, ou “espinho de peixe”. Este tipo de relato me impacta até emocionalmente. Temos que esclarecer a necessidade desse exame anual na mídia de forma maciça e sua relação direta com tabaco, exposição ao sol e efeito carcinogênico do álcool em qualquer dose, frequência e tipo de bebida.

2ª) – Lesões escuras na mucosa bucal devem ser analisadas minuciosamente pelos profissionais, e se for o caso tratadas e ou biopsiadas imediatamente. Pode se adotar a seguinte frase: “lesões escuras na mucosa bucal, até prova em contrário, são malignas”.  A prova ao contrário seria uma biopsia, ou um diagnóstico clínico seguro de outra lesão seguida imediatamente de tratamento.

Quando se diz que devem ser biopsiadas, não significa na semana que vem, o ideal é biopsiar amanhã. As células malignas proliferam alucinadamente aos milhões a cada dia. Cada dia importa no prognóstico de cada caso. Chega de burocracias de ambulatórios, hospitais e planos de saúde. Chega de melanomas e carcinomas na boca!

3ª). Em radiografias e tomografias de dentes e maxilares, as lesões radiolúcidas e ou hipodensas, respectivamente, até prova ao contrário, são malignas ou agressivas. Todas as pessoas deveria ter anualmente seus dentes e maxilares analisados em radiografias e ou tomografias. Cientificamente, as radiações provocadas por elas não impactam ou causam câncer como se chegou a acreditar um tempo atrás, mesmo em crianças.

Precisamos criar estruturas nas unidades de saúde públicas e privadas para que isto aconteça, com protocolos preventivos continuados e não apenas em campanhas. Em países como a nobre Costa Rica, evita-se as doenças fazendo visitas médicas mensais, semestrais e anuais nas casas das pessoas, abortando as causas, manifestações iniciais, eliminando a maior parte dos cânceres e outras doenças, o que barateia o sistema de saúde.

REFLEXÃO FINAL

O último relatório da OMS aponta que para reduzir as mortes prematuras até 2030, é preciso: 1º) Acabar com as desigualdades no acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento. 2º) Enfrentar o principal desafio que não é a falta de conhecimento científico sobre o câncer, mas a distância entre aquilo o que já se sabe ser eficaz e o que efetivamente é colocado em prática. 3º) E, que sem ações mais rápidas e integradas, o número de casos continuará crescendo.

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