OPINIÃO

Queda no mercado de trabalho e trégua na guerra: juros cairão?

Por Reinaldo Cafeo | Diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 2 min

A condução da política monetária no Brasil sempre foi um exercício de equilíbrio entre as pressões do mercado interno e os ventos, frequentemente tempestuosos, do cenário internacional. Nas últimas semanas, contudo, duas forças distintas convergiram para desenhar um cenário consideravelmente mais benigno para a trajetória da taxa básica de juros, a Selic.

De um lado, os dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) apontam para uma desaceleração na abertura de vagas formais. De outro, a trégua nos conflitos no Oriente Médio trouxe o tão esperado alívio aos mercados globais de commodities. Juntos, esses fatores retiram o peso que vinha sustentando a postura conservadora do Banco Central.

A desaceleração na geração de empregos formais registrada pelo CAGED acende um sinal amarelo para a atividade econômica, mas funciona como um bálsamo para as projeções inflacionárias.

Um mercado de trabalho que operava extremamente aquecido vinha pressionando a inflação de serviços e a massa salarial real, gerando temores de que a demanda doméstica superasse a capacidade de oferta do país. Com a perda de ritmo na criação de novos postos com carteira assinada, o Comitê de Política Monetária (Copom) passa a contar com uma evidência palpável de que o aperto monetário anterior cumpriu seu papel de desacelerar a economia. A menor pressão sobre o consumo das famílias esfria os riscos de repasse de custos e reduz a necessidade de manutenção de juros em patamares excessivamente restritivos.

No front externo, a acomodação temporária das tensões no Oriente Médio atua como o segundo pilar dessa mudança de cenário. O acirramento geopolítico vinha funcionando como um fantasma para a inflação global, dada a volatilidade nos preços do barril de petróleo e os gargalos logísticos no comércio marítimo.  A consolidação de uma trégua afasta, ao menos no curto prazo, o risco de um choque de oferta de energia que forçaria os bancos centrais ao redor do mundo, inclusive o Federal Reserve nos Estados Unidos a prolongar suas políticas de juros elevados. Com o preço do petróleo arrefecendo, o canal de inflação importada no Brasil perde força, desonerando a cadeia de combustíveis e estabilizando o câmbio.

Diante desse duplo alívio, a autoridade monetária brasileira ganha o oxigênio necessário para flexibilizar a Selic de forma mais assertiva. Se antes o Banco Central se via obrigado a manter uma "gordura" de proteção contra choques externos e contra um superaquecimento doméstico, o desenho atual permite uma transição para a normalização monetária.

O grande desafio dos formuladores de política econômica agora será calibrar o ritmo dos cortes: o estímulo precisa ser suficiente para não sufocar o mercado de trabalho formal em desaceleração, mas comedido o bastante para não reacender as expectativas inflacionárias caso o cenário externo volte a se deteriorar.
}
Por ora, o horizonte dos juros está mais limpo do que se previa.

Comentários

Comentários