COLUNISTA

O paciente oncológico e os dentes

Por Alberto Consolaro |
| Tempo de leitura: 3 min
Professor titular da USP e colunista de Ciências do JC
A terapia oncológica deve ser precedida pelo exame da boca e tratamento de caries, doença periodontal, lesões periapicais, dentes, não irrompidos e fraturas radiculares, etc
A terapia oncológica deve ser precedida pelo exame da boca e tratamento de caries, doença periodontal, lesões periapicais, dentes, não irrompidos e fraturas radiculares, etc

A neoplasia “maligna” tem métodos sorrateiros. Rouba os nutrientes que seriam para as células normais, como voraz parasita. Habita os espaços próximos aos vasos, onde mais proliferam. Fragiliza os ossos, tornando-os irregulares para que suas células possam habitá-los.

Tirando o cálcio dos ossos, ela promove uma hipercalcemia maligna que gera uma dor insuportável e o paciente fica acamado, sem fazer nada, para que possa tomar conta do organismo, sem que ele reaja. Para que não erre caminhos, suas células bizarras invadem os tecidos por estradas naturais como os nervos e vasos, chegando nos órgãos nobres.

Para que não pare de crescer e invadir os tecidos, as células malignas e mutantes ativam as mitoses e inibem os mecanismos de mortes geneticamente programadas, tornando-se imortais sobre as células normais.

Na boca, são bilhões de agentes microbianos que entram a todo momento nos tecidos como escovação e mastigação normais. Mas as células e substâncias inflamatórias e imunológicas as eliminam em segundos. Porém, em pacientes debilitados não tem células e substâncias de defesa para “imediatamente” eliminar as bactérias que entram e podem permanecer minutos preciosos que usam para se esconderem, protegerem, multiplicando-se nestes locais.

PACIENTE ONCOLOGICO

Paciente oncológico é o que tem uma neoplasia maligna em seu organismo independentemente se está em quimio, radio ou imunoterapia. Um paciente deixa de ser considerado oncológico para fins odontológicos, apenas quando recebe alta do oncologista confirmada por uma declaração escrita ou verbal.

O paciente oncológico deve ser considerado sistemicamente debilitado. Qualquer acesso de bactérias ao osso, como na colocação de implantes e minimplantes, pode levar a uma osteomielite que pode ser mutilante. Em paciente oncológico está contraindicado as cirurgias para implantes, deixando os para quando o paciente receber alta do oncologista. Se o paciente faz quimioterapia oncológica, agora também é debilitado sistemicamente pela quimioterapia, sendo contraindicada a colocação de implantes.

Se o paciente oncológico recebeu radioterapia, os tecidos ósseos estão com baixa capacidade reparatória, pois tem número reduzido de osteoblastos, clastos, osteócitos, vasos e nervos. Além de debilitado pela doença, o osso irradiado que receberia um implante dentário tem baixa capacidade de reparo e osseointegração. Está contraindicado a colocação de implantes, sendo necessários esperar entre 5 a 10 anos, dependendo da avaliação local. Se bactérias tiver acesso a este osso, poderá ocorrer a osteoradiomielite, ou seja, a osteomielite em osso irradiado ou com osteorradionecrose.

No tratamento com imunoterápicos, o paciente oncológico não deixa de estar debilitado pela doença por si mesmo. A imunoterapia não debilita o paciente, mas ele está debilitado pela doença, contraindicando os implantes ou outros procedimentos com risco de se colocar bactérias nos tecidos.

Se o paciente oncológico estiver tomando antirreabsortivos ósseos, independente de for bisfosfonatos ou anticorpos monoclonais, isto indica que o paciente ainda é oncológico, ou seja, é debilitado pela doença e intervenções como implantes, exodontias ou outras cirurgias, podem levar a osteomielites.

O PREPARO

Nos pacientes oncológicos, o ideal é atuar antes para deixar a boca livre de processos infecciosos, evitar procedimentos que sangram ou lesem a mucosa, orientar a higienização e fazer o controle periódico. Nosso papel é fazer com que esta fase passe livre de intercorrências.

Antes de começar terapias oncológicas, deve se eliminar riscos em potencial como lesões periapicais e periodontais ativas, dentes fraturados, raízes residuais, dentes parcialmente irrompidos, etc. No paciente oncológico, a boca deve ser preparada antes para que receba o tratamento.

Se procedimentos forem inadiáveis nos pacientes oncológicos, fazer com cadeia asséptica rigorosa, cobertura antibiótica e ser minimamente invasivo dentro do possível. O controle pós-operatório deve ser diário, pois os riscos são altos.

RELFEXÃO FINAL

Nos pacientes oncológicos, também vale o princípio: primeiro a biologia, depois a estética!

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