Em anos eleitorais, especialmente quando está em jogo a Presidência da República, o Brasil costuma mergulhar em debates acalorados, mas nem sempre relevantes. Narrativas polarizadas, disputas ideológicas superficiais e promessas de curto prazo frequentemente ocupam o centro da agenda. Enquanto isso, as questões que de fato determinam o futuro econômico do país acabam sendo deixadas em segundo plano.
Esse é um erro recorrente e perigoso.
O Brasil enfrenta desafios estruturais que não serão resolvidos com slogans, nem com medidas pontuais voltadas apenas para o calendário eleitoral. É preciso aproveitar o momento político para promover uma discussão madura, transparente e responsável sobre qual modelo econômico o país pretende adotar nas próximas décadas.
Essa é talvez a pergunta mais importante e também a mais negligenciada. O Brasil seguirá apostando em um Estado mais intervencionista, com maior presença na economia, ou caminhará para um ambiente mais orientado pelo mercado, com foco na eficiência, produtividade e competitividade? Ambos os caminhos exigem escolhas claras, com custos e benefícios. O problema é que, muitas vezes, os discursos evitam esse debate de forma direta, preferindo acomodar posições contraditórias que agradam diferentes grupos no curto prazo, mas criam incertezas no médio e longo prazo. Sem clareza sobre essa direção, o país convive com um ambiente de incerteza que afeta investimentos, decisões empresariais e o próprio crescimento econômico.
Outro tema central, e frequentemente tratado de maneira superficial, é o endividamento público. O Brasil convive com uma dívida elevada, que pressiona o orçamento e limita a capacidade de crescimento. Mais do que um número, a dívida pública influencia diretamente o nível da taxa de juros. Quanto maior o risco percebido, maior tende a ser o custo do dinheiro. Isso encarece investimentos, desestimula o consumo e restringe o dinamismo econômico. A pergunta que precisa ser respondida é: qual será a estratégia concreta para estabilizar e reduzir essa dívida ao longo do tempo? Não se trata apenas de cortar gastos ou aumentar receitas, mas de construir um arcabouço fiscal crível, que gere confiança e previsibilidade. Sem esse compromisso, o país continuará preso a uma armadilha de juros elevados e baixo crescimento.
Nenhuma economia se desenvolve de forma consistente sem um ambiente de negócios favorável. Isso envolve regras claras, estabilidade institucional e segurança jurídica. Investidores, nacionais e estrangeiros, precisam de previsibilidade. Mudanças frequentes de regras, disputas administrativas e judiciais prolongadas e interferências inesperadas criam um cenário de incerteza que inibe investimentos produtivos. O Brasil já deu passos importantes nesse campo, mas ainda está distante do ideal. Em um mundo cada vez mais competitivo na atração de capital, não basta ser “menos ruim” é preciso ser atrativo.
A reforma da Previdência foi um avanço relevante, mas está longe de encerrar o debate. A dinâmica demográfica continua impondo desafios importantes. O envelhecimento da população, combinado com um mercado de trabalho ainda marcado pela informalidade, pressiona o sistema. Isso levanta uma questão inevitável: como garantir a sustentabilidade da Previdência no longo prazo sem comprometer a justiça social? Esse é um debate que exige responsabilidade e transparência. Evitá-lo por conveniência eleitoral apenas transfere o problema para o futuro e o torna ainda mais difícil de resolver.
Talvez o maior desafio seja justamente elevar o nível do debate. Em períodos eleitorais, é natural que propostas de curto prazo ganhem espaço. O problema surge quando o populismo substitui completamente a responsabilidade. Promessas que ignoram restrições fiscais, que desprezam impactos inflacionários ou que criam soluções artificiais podem até gerar ganhos políticos imediatos, mas cobram um preço alto da sociedade no futuro.
O Brasil precisa, mais do que nunca, de uma agenda que esteja acima do calendário eleitoral. Uma agenda que enfrente os temas estruturais com seriedade, que reconheça limites e que construa consensos mínimos.
Por fim, é fundamental lembrar que a qualidade do debate também depende do eleitor. Cobrar respostas concretas, questionar propostas e exigir clareza nas posições é essencial para elevar o nível da discussão. Eleições não deveriam ser apenas uma disputa de narrativas, mas uma oportunidade para definir os rumos do país.
O Brasil tem potencial, tem recursos e tem capacidade. O que falta, muitas vezes, é justamente aquilo que um ano eleitoral deveria proporcionar: um debate profundo, responsável e orientado para o futuro.
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