OPINIÃO

Triste fim...

Por Guto Calazans | O autor é publicitário e jornalista, Marketing de Varejo pelo IESB, MBA em Marketing Político e Pesquisa pela ESAB Pós Graduação em Estratégias Competitivas pela Unesp/Faac. Diretor da Azul Tomate Com
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A História costuma ser generosa com os distraídos e cruel com os desmemoriados. “Deus, Pátria e Família”, slogan eternizado por Benito Mussolini, ressurge no Brasil como mantra político de setores da direita contemporânea não como coincidência histórica, mas como um eco que muitos preferem chamar de tradição.

Curiosamente, os mesmos que se emocionam diante das cenas do holocausto, choram nos filmes, indignam-se com a barbárie e repetem “como isso foi possível?” por vezes aplaudem, sem qualquer constrangimento, discursos, símbolos e práticas que dialogam com o imaginário autoritário de Adolf Hitler e do próprio Mussolini. A tragédia, porém, talvez não esteja apenas na política, mas no empobrecimento intelectual do debate. Fala-se de socialismo com a segurança de quem jamais leu um pensador socialista, de capitalismo sem compreender suas contradições, e de democracia como quem escolhe time de futebol. Comparações infantis, slogans de internet e convicções fabricadas substituíram livros, estudo e reflexão.

Há uma espécie de certeza arrogante na ignorância contemporânea: o indivíduo não lê, mas opina com fervor; não estuda, mas sentencia; não conhece, mas combate. Chega um momento em que discutir deixa de ser troca de ideias e passa a ser um exercício de resistência ao vazio argumentativo. E isso é devastador para uma sociedade que deveria crescer pelo confronto inteligente de ideias, não pela repetição automática de frases prontas.

O mundo digital democratiza o acesso à informação, mas também ensinou uma geração a confundir vídeo curto com conhecimento, meme com argumento e algoritmo com verdade. Até a velha conversa de boteco exigia alguma leitura, repertório ou curiosidade; hoje, muitas vezes, virou espetáculo improvisado, um stand-up involuntário da desinformação. A polarização floresce justamente nesse terreno: fake news, bolhas ideológicas, incapacidade de questionar a própria crença e consumo exclusivo de notícias do mesmo espectro político.

No fim, talvez estejamos vivendo uma atualização melancólica de Triste Fim de Policarpo Quaresma: um país apaixonado por suas certezas, mas pouco disposto a compreender a própria complexidade.

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