COLUNISTA

Os incríveis Biofilmes Microbianos

Por Alberto Consolaro |
| Tempo de leitura: 3 min
Professor Titular da USP e Colunista de Ciências do JC
O biofilme, em vermelho, tem várias camadas de bactérias (B) que agregam outros microrganismos na superfície dentária (setas) ao microscópio eletrônico
O biofilme, em vermelho, tem várias camadas de bactérias (B) que agregam outros microrganismos na superfície dentária (setas) ao microscópio eletrônico

Quando não higienizamos adequadamente, formam-se películas onde estarão milhões de bactérias, fungos, vírus e parasitas. Essas películas são os biofilmes microbianos, mas se usou por muito tempo o termo “placa dentobacteriana”, hoje bem menos, pois não é placa, nem o dente faz parte e muito menos é só bacteriana.

Os biofilmes microbianos estão nas lentes de contato, unhas, língua, joias, brincos, piercings e dentes. Mais: nas pias e vasos sanitários, escovas de dentes, sabonetes, massageadores e geladeiras! São vistos em chips que controlam estoques de alimentos, medicamentos e outros produtos. Nas próteses e aparelhos, incluindo os alinhadores: se não higienizar, forma-se muitos biofilmes microbianos.

Na boca, rica em superfícies úmidas cheias de nutrientes, as bactérias, vírus, fungos e parasitas se juntam e produzem moléculas aderentes. Bactérias proliferam a cada 20 minutos e uma atrai a outra e outros microrganismos, logo teremos uma comunidade de microrganismos bem-organizada, recobrindo a área.

IMPENETRÁVEIS E ORGANIZADOS

As bactérias aprenderam bem cedo que isoladas são frágeis e destruídas pelas células, anticorpos, antissépticos e desinfectantes. Isoladas ficam expostas na saliva e líquidos, quando são chamadas de bactérias planctônicas.

Nos biofilmes microbianos, as bactérias produzem uma meleca de açucares para criar um gel em torno de si como reserva nutritiva, mas também para não deixar que agressores entrem na “comunidade” instalada. Não entram nos biofilmes microbianos os anticorpos, antibióticos, antissépticos, células de defesa e enzimas. Esse gel une e protege a todos.

No biofilme microbiano existem canais e ruas onde circulam e passam nutrientes, esgotos e o ar. Até têm janelas e portas para se comunicarem com o mundo. Neste ambiente há civilidade, cidadania e solidariedade. Sim, formam uma comunidade pensante e atuante.

DIVERSIDADE E ECONOMIA

O mundo sem biofilmes microbianos seria, ou será, muito diferente e quem descobrir como destruí-los quimicamente, ganhará o Nobel de Medicina. O poder econômico poderoso tenta seu controle há anos. As pesquisas são profundas e amplas envolvendo desde a saúde até a produção industrial.

Eles se formam em cânulas, sondas, câmaras, marca-passos, próteses e cavidades como coração, pulmões, boca e seios paranasais, além das placas ateromatosas. Interrompem fábricas, pois destroem chips levando a severos prejuízos

Sem diversidade, não se consegue construir e organizar comunidades ou biofilmes microbianos com apenas um tipo de bactérias. Sempre se precisa de muitas outras espécies de bactérias, vírus, fungos e parasitas. Os biofilmes mais funcionais, organizados e eficientes são os com maior diversidade de espécies: vamos aprender!

TRÊS REFLEXÕES FINAIS

1 - Não temos produtos químicos que atuem desorganizando e dissolvendo os biofilmes microbianos, é necessário atuar mecanicamente para removê-los. O biofilme microbiano mais comum é a “placa dentobacteriana” na superfície dos dentes e mucosa bucal.
2 - Não dá para controlar a formação ou remoção de biofilmes usando-se antissépticos ou enxaguantes bucais, pois requer-se escova, dentifrício e fio dental. E é claro que eles atuam nas bactérias planctônicas ou livres, mas não são eficientes contra biofilmes microbianos.
3 - Temos que higienizar a boca várias vezes ao dia! Depois de duas horas, temos novos biofilmes microbianos. A microbiota bucal não desiste pois, organizada, fica livre de agentes externos, exceto da ação mecânica da higiene bucal. Um dia aprenderemos, pois assim foi com a anestesia, antibióticos e com os implantes dentários.

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