Se o governo americano, de repente considerar que o Pix e o sistema bancário brasileiro sofrem infiltrações de facções criminosas, numa canetada o presidente Trump pode descarta-los do sistema financeiro internacional ou aplicar sanções pesadas. Nenhum banco do mundo, inclusive os russos e iranianos podem prescindir de Wall Street.
Essa seria apenas uma das hipóteses possíveis depois da decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como "organizações terroristas". Trump tem muitas ferramentas à disposição para proteger seu país e os interesses de segurança nacional. As leis norte-americanas têm espaço para considerar o tráfico de drogas ilícitas uma "atividade terrorista".
O presidente Lula, que esteve recentemente em Washington com Trump, avalia que uma medida desse tipo não é tecnicamente correta uma vez que não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo, como tipificado na lei brasileira. O PCC e o Comando Vermelho agem por interesses econômicos sem qualquer motivação ideológica, diferentemente das organizações terroristas. Trump tem contestado essa distinção, a exemplo de suas intervenções no México, contra os carteis. Invadiu a Venezuela e sequestrou o presidente Nicolás Maduro sob pretexto de combater o "terrorismo narcotraficante", responsável pela invasão de drogas em território americano. Diplomatas do Itamaraty e cientistas políticos temem que os Estados Unidos possam lançar mão de instrumentos jurídicos, financeiros, diplomáticos e militares na tentativa de ampliar sua influência sobre Brasília. O anúncio de Trump ecoa no Brasil em um ano eleitoral. Explicitamente foi dado a público em seguida a uma visita à Casa Branca de Flávio Bolsonaro. O pré-candidato à Presidência da República do Brasil disse, após o encontro, ter pedido a Trump para tomar essa decisão. O governo brasileiro foi pego de surpresa. Em última análise, isso pode desgastar Lula, embora o presidente americano tenha afirmado não ter a pretensão de influenciar na eleição brasileira.
O que preocupa não é o uso político do tema pela direita ou pela esquerda. O que arrepia é a implicação profunda desse ato na soberania e na autonomia brasileiras, na sua economia, no seu sistema financeiro e mesmo na geopolítica. Trump pode determinar incursões militares na Amazônia - por exemplo - dizendo-se na obrigação de combater o narcotráfico, que por ali existe. Atacar embarcações, como já fez no Caribe, fazer bloqueios econômicos e de bens de brasileiros no exterior - são outras hipóteses. O problema do narcotráfico é bem mais complexo. O governo brasileiro poderia reclamar das autoridades de segurança norte-americanas por não adotarem fiscalização mais rigorosa que possa coibir o contrabando de armas que dá poder de fogo às facções nos morros e nas periferias das capitais.
Pelas leis do seu país, Trump tem respaldo para fazer valer seus rompantes. Uma lei criada para combater a máfia de lá, permite a persecução e combate às organizações criminosas envolvidas nos chamados "crimes continuados", como corrupção, lavagem de dinheiro, extorsão e tráfico. Se um grupo é classificado como terrorista, o país que o abriga pode ser considerado uma ameaça à segurança nacional. A Lei Magnitsky funciona com o mesmo espírito da Lei Anti-Máfia. Trump a utilizou contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, para dificultar sua relação com o sistema financeiro americano. Lula propôs a Trump que seus países trabalhem em cooperação contra o crime organizado ou contra o terrorismo, independentemente do tratamento semântico. O FBI e a Polícia Federal do Brasil podem trocar informações mediante redes de inteligência que levem ao desbaratamento de quadrilhas e prisão de criminosos, tanto aqui como lá.
Se os governos discordam, por meras questões de método, essa cooperação possível e desejável fica prejudicada.