OPINIÃO

Redução da jornada: avanço social ou equívoco econômico?

Por Reinaldo Cafeo | Diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 3 min

A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6x1, atualmente em debate no Congresso Nacional, recoloca na agenda um tema sensível: a redução da jornada de trabalho no Brasil. À primeira vista, trata-se de uma pauta socialmente atraente. Afinal, quem seria contra trabalhar menos e viver melhor? O problema, contudo, está no timing e nas condições estruturais do país.
O Brasil ainda é uma economia emergente. Não é pobre, tampouco alcançou o estágio de produtividade e renda das economias desenvolvidas. E é justamente nesse momento de transição, em que o país busca crescer, ganhar competitividade e melhorar a qualidade de vida da população, que a força de trabalho se revela um ativo essencial.
Reduzir a jornada de 44 para 40 horas semanais, sem estudos mais aprofundados e sem um período adequado de transição para o setor produtivo, pode representar um tiro no pé. A consequência mais provável não será apenas o aumento de custos para as empresas, mas também efeitos macroeconômicos importantes: menor crescimento, possível redução da geração de empregos formais e até pressão inflacionária.
Isso ocorre porque, ao encurtar abruptamente o tempo de trabalho sem ganhos equivalentes de produtividade, eleva-se o custo unitário do trabalho. Empresas, especialmente em setores intensivos em mão de obra, como supermercados e serviços terão dificuldade em absorver esse impacto sem repassá-lo ao consumidor ou sem reduzir contratações.
É importante notar que há opções mais inteligentes e modernas sendo debatidas. Um exemplo é a flexibilização das formas de contratação, com a ampliação do modelo de trabalho por hora. Nesse sistema, trabalhador e empresa ganham liberdade para ajustar a jornada conforme suas necessidades.
O trabalhador poderia escolher quanto quer trabalhar, 40, 44 horas ou até menos. Já as empresas ganhariam maior previsibilidade e capacidade de adaptação, especialmente em setores com forte variação de demanda ao longo da semana ou do mês. Trata-se de um modelo mais alinhado às novas dinâmicas do mercado de trabalho, que valoriza autonomia e flexibilidade.
Portanto, antes de impor uma redução linear e obrigatória da jornada, o debate deveria caminhar para uma modernização das relações de trabalho, ampliando escolhas em vez de restringi-las.
Outro ponto crítico é o contexto político em que essa discussão emerge. Em anos eleitorais, temas estruturais frequentemente são contaminados por interesses de curto prazo. Propostas ganham apelo popular, mas perdem densidade técnica. O risco, nesse caso, é tomar decisões com forte viés político e pouca racionalidade econômica.
Reformas dessa magnitude exigem responsabilidade, estudos de impacto e diálogo amplo entre trabalhadores, empresários e governo. Não se trata de negar avanços sociais, mas de garantir que eles sejam sustentáveis.
No atual estágio brasileiro, a prioridade deveria ser clara: crescer mais, aumentar a produtividade e gerar renda. Somente com esses pilares consolidados será possível discutir, de forma consistente, a redução da jornada sem comprometer o próprio mercado de trabalho.
Por isso, talvez o mais sensato seja retirar esse tema da pauta imediata e retomá-lo em um ambiente menos contaminado por disputas eleitorais. O Brasil precisa, antes de tudo, construir as bases que sustentem esse tipo de avanço.
Reduzir a jornada pode ser um objetivo legítimo. Mas fazê-lo agora, da forma como está sendo proposto, pode custar caro demais para um país que ainda tem tanto a avançar.

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