HISTÓRIAS DE BAURU

Rodrigues de Abreu: ele eternizou Bauru na poesia paulista

Por Priscila Medeiros e Alex Gimenez Sanches | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Museu Ferroviário Regional de Bauru
Rodrigues de Abreu
Rodrigues de Abreu

Bauruense de coração (e paixão), operário agrícola nos sítios e fazendas de Capivari e Piracicaba, professor primário, escrevente de cartório e um dos maiores poetas do século 20, esse era Benedicto Luís Rodrigues de Abreu, conhecido na literatura como Rodrigues de Abreu.

Nasceu em uma família de trabalhadores rurais no dia 27 de setembro de 1897, em Capivari (216 quilômetros de Bauru), e chegou à "cidade de espantos" (como constantemente se referia à cidade) em 1922, a convite do amigo Celso de Almeida, para trabalhar como escrevente no Cartório de Hipotecas da Comarca. Sua irmã já morava na cidade, que, nessa época, vivia forte crescimento econômico e cultural impulsionado pelas ferrovias.

De personalidade fácil e comunicativa, logo começou a participar da vida social e cultural da cidade, integrando-se ao ambiente artístico. Recitava poemas, fazia discursos, organizava apresentações teatrais, além de colaborar com revistas e jornais locais, como o Correio de Bauru e o Diário da Noroeste.

Segundo relato da amiga Hilda de Barros Monteiro, "Rodrigues de Abreu, com o seu temperamento alegre e folgazão, tornou-se logo conhecidíssimo e muito estimado por toda a sociedade de Bauru. Não havia festa, em clubes ou reuniões particulares, em que o Abreu não fosse figura indispensável e o centro de onde emanavam sempre a alegria, a jovialidade, o espírito. Todos lhe reconheceram em pouco tempo a supremacia do talento".

Rodrigues de Abreu sempre foi uma pessoa socialmente ativa, grande ator e desportista. Foi centroavante do Capivariano F.C. e compôs o hino oficial do time. Fundou o "Grêmio Literário e Recreativo de Capivari", grupo em que encenou Capivari em Camisola, escrita por Epaminondas de Almeida na parte em prosa e por ele nas passagens em versos.

A paixão por Bauru é evidente em sua obra e passou a ser sua inspiração para escrever. Foi na cidade que consolidou sua trajetória literária, produzindo grande parte de suas obras. Em homenagem ao município, escreveu o poema "Bauru".

Lançou seu primeiro livro, "Noturnos", em 1919, pequena obra impressa na Gazeta de Piracicaba. Entre os anos de 1919 e 1922, colaborou com jornais de Capivari e cidades vizinhas, além de revistas e jornais paulistas, especialmente a revista "Cigarra" e o "Estadinho".

Na mesma época, escreveu seu segundo livro, "A Sala dos Passos Perdidos", e o primeiro capítulo de "Casa Destelhada". Em 1926, produziu "Macega Florida", último capítulo de "Casa Destelhada". No início de 1927, a Editora Hélios publicou "Casa Destelhada e Outras Poesias", obra que consolidou seu prestígio literário. Seu último escrito foi o poema "A Balada da Nave de Nuvem".

Em 1925, os amigos realizaram festivais beneficentes em São Paulo e Bauru para ajudá-lo financeiramente, já que precisou ser internado em Campos do Jordão e Atibaia devido à tuberculose. No mesmo ano, mudou-se para São José dos Campos, onde viveu até abril de 1927. Retornou a Bauru, onde faleceu em 24 de novembro de 1927, amparado pelo pai e pelo irmão, em decorrência da doença. Rodrigues de Abreu confessara várias vezes o desejo de "ser tuberculoso". Segundo ele, esse era o mal que geralmente acometia os grandes poetas do passado.

De acordo com relatos biográficos, mesmo em tratamento contra a tuberculose na cidade de Atibaia, repetia constantemente: "Bauru! Bauru! Bauru!". Seu velório foi realizado na casa da amiga Hilda de Barros Monteiro, no quarteirão 2 da rua Treze de Maio, sendo o caixão carregado pelos amigos até o Cemitério da Saudade, onde está seu túmulo.

Sua morte precoce, aos 30 anos, interrompeu uma trajetória literária que ainda prometia amadurecimento artístico. Apesar disso, Rodrigues de Abreu consolidou-se como um dos nomes importantes da poesia paulista das primeiras décadas do século 20. Embora não tenha alcançado a mesma projeção nacional de nomes do modernismo, como Mário de Andrade ou Carlos Drummond de Andrade, é reconhecido como uma das vozes mais sensíveis e marcantes da poesia regional paulista, destacando-se pela delicadeza lírica, musicalidade e forte carga emocional, ajudando a consolidar uma identidade literária do interior.

HOMENAGENS

A importância de Rodrigues de Abreu é reconhecida na cidade por meio de diversas homenagens. Em 1939, a praça localizada entre as ruas Sete de Setembro, Virgílio Malta e 13 de Maio e que abriga a igreja Santa Teresinha, passou a se chamar praça Rodrigues de Abreu. No local em 1966, foi instalado um busto feito pelo escultor e pintor Raphael Galvez, a pedido do então deputado Nicola Avallone Júnior e que hoje se encontra na Biblioteca Central.

No mesmo ano, o primeiro grupo escolar da cidade, criado em 1913, também recebeu a denominação de Rodrigues de Abreu.

Em 1983 a biblioteca municipal também passou a levar seu nome. Hoje, a Biblioteca Central Rodrigues de Abreu fica na quadra 8 da avenida Nações Unidas, dentro do Centro Cultural Carlos Fernandes de Paiva, onde estão localizadas as bibliotecas Verde e Infantil Ivan Engler de Almeida, além da Gibiteca e da Brinquedoteca. Seu acervo soma 80 mil livros (entre eles as obras do patrono) distribuídos entre a Biblioteca Central e as três bibliotecas ramais (Geisel, Ouro Verde e Vila Industrial).

Busto de Rodrigues de Abreu está na Biblioteca Municipal que leva seu nome.
Busto de Rodrigues de Abreu está na Biblioteca Municipal que leva seu nome.
Amigos carregam caixão de Rodrigues de Abreu
Amigos carregam caixão de Rodrigues de Abreu

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