OPINIÃO

Desenrola 2.0: populismo ou solução?

Por Reinaldo Cafeo | O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 2 min

O governo federal lançou o Desenrola 2.0, nova rodada do programa de renegociação de dívidas voltado principalmente às famílias de renda mais baixa. A iniciativa permite descontos expressivos sobre dívidas antigas, juros significativamente menores do que os praticados no mercado e prazos mais longos de pagamento, além da possibilidade de uso parcial do FGTS. Trata-se de uma oportunidade para milhões de brasileiros reorganizarem suas finanças, limparem o nome e trocarem dívidas caras por compromissos mais administráveis.

O mérito do programa está no alívio imediato ao orçamento das famílias em um cenário de carestia persistente e renda pressionada. Para quem se endividou em contextos não previstos, como desemprego, perda de renda ou alta no custo de vida, o Desenrola cumpre um papel social relevante. O problema surge quando a renegociação passa a ser encarada como solução permanente, e não como medida extraordinária. Parte dos beneficiários do Desenrola 2.0 já havia recorrido ao programa anterior e voltou a se endividar, o que expõe uma fragilidade estrutural.

Renegociar dívidas não elimina a causa do endividamento. Sem mudança de comportamento, o risco de reincidência é elevado. A pergunta central que precisa ser feita é simples, mas frequentemente ignorada: por que essa dívida surgiu? Houve gasto acima da renda? Falta de controle do orçamento doméstico? Uso recorrente de crédito caro para sustentar um padrão de vida incompatível? A renda foi utilizada para jogos on-line? Emprestou o nome para parentes? Sem educação financeira básica, planejamento e disciplina, qualquer alívio oferecido pelo Estado tende a ser temporário.

Além disso, o debate sobre endividamento não pode ser dissociado da inflação e da estabilidade econômica. A corrosão do poder de compra empurra famílias para o crédito, muitas vezes não por consumo supérfluo, mas para manter despesas essenciais. Ter consciência disso significa também compreender que decisões econômicas e escolhas políticas têm impacto direto no orçamento doméstico, hoje e no futuro.

O Desenrola 2.0 é necessário e bem-vindo como resposta emergencial. Mas seu real sucesso dependerá da capacidade de estimular, paralelamente, uma mudança de mentalidade. Resolver o problema atual é importante; mais importante ainda é evitar que ele se repita. Sem prevenção, o país corre o risco de transformar a renegociação periódica em regra e esse é um custo que, cedo ou tarde, a sociedade inteira acaba pagando.

O desenrola 2.0 só não será populismo neste ano de eleição, se efetivamente vier acrescido de consciência no consumo e que o governo deixe de apostar no crescimento da economia estimulando os gastos do consumidor via facilidade do crédito.

Passou da hora de atacar as causas e não as consequências.

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