HISTÓRIAS DA CIDADE

Alfredo de Castilho: a história por trás do nome do 'Alfredão'

Por Priscila Medeiros e Alex Sanches Gimenez (historiador) | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Museu Ferroviário Regional de Bauru
Alfredão sendo construído em área doada por Salvador Filardi
Alfredão sendo construído em área doada por Salvador Filardi

Quem nunca ouviu as expressões "vai ser lá no Alfredo de Castilho" ou "lá no Alfredão"? Mas você sabe quem foi a personalidade que deu nome ao estádio do Esporte Clube Noroeste?

Natural de Itabira (MG), Alfredo de Castilho foi engenheiro e diretor da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) nos períodos de 1925 a 1929 e de 1934 a 1937. Teve papel fundamental na expansão ferroviária, contribuindo para a ligação do interior de São Paulo ao Mato Grosso do Sul. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1947.

Castilho foi figura decisiva para o desenvolvimento econômico e infraestrutural do interior paulista no início do século 20. Em 1928, por determinação do então presidente Washington Luís, esteve na Europa para acompanhar a fabricação de máquinas adquiridas pela NOB, permanecendo no cargo até o ano seguinte. Retornou à direção da ferrovia em 1934 e, em março de 1937, foi substituído por Marinho Lutz.

Em reconhecimento à sua relevância, seu nome foi atribuído à cidade de Castilho, localizada a 316 quilômetros de Bauru, na divisa com o Mato Grosso do Sul (registros do nome datam de 1940), além de denominar ruas em diversas cidades paulistas, como Guararapes. Em Bauru, Alfredo de Castilho foi um dos primeiros sócios-beneméritos do Esporte Clube Noroeste, ao lado de figuras importantes da cidade, como Eduardo Vergueiro de Lorena, prefeito entre 1925-1926 e 1929-1930, e Ernesto Monte, que governou entre 1938 e 1941.

Com a construção do primeiro estádio do Noroeste, totalmente em madeira, situado entre as ruas Quintino Bocaiúva, Silvério São João, Rubens Arruda e José Aielo (continuação da avenida Duque de Caxias), o clube decidiu homenageá-lo, dando seu nome ao local em 1º de agosto de 1935.

Antes disso, entre 1910 e 1935, o clube utilizava um campo de futebol no cruzamento das ruas Primeiro de Agosto e Azarias Leite, em terreno adquirido de Joaquim Machado de Mello.

Em 23 de novembro de 1958, durante uma partida entre Noroeste e São Paulo Futebol Clube, a arquibancada geral pegou fogo. O incêndio destruiu o setor popular do estádio, provocando pânico no público. O fogo também atingiu residências próximas, deixando cinco pessoas feridas.

O clube voltou a ter sede própria em 5 de junho de 1960, com a inauguração do novo estádio em concreto armado, construído pelos próprios ferroviários em uma área de 72.600 metros quadrados, na Vila Pacífico. O terreno foi doado por Salvador Filardi à NOB para a obra. Na partida inaugural, o Noroeste venceu o Palmeiras por 3 a 2.

Inicialmente, o estádio recebeu o nome do engenheiro Ubaldo Medeiros, que, à frente da NOB, articulou recursos e apoio popular para viabilizar a construção. Uma placa em sua homenagem foi instalada na entrada do estádio.

No entanto, em 1964, durante o regime militar, o estádio voltou a se chamar Alfredo de Castilho. Oficialmente, a mudança seguiu norma que proibia a nomeação de bens públicos em homenagem a pessoas vivas. Há, porém, indícios de que fatores políticos também influenciaram a decisão, já que Medeiros era ligado ao governo do então presidente João Goulart.

Curiosidades do Alfredão


Primeiro estádio Alfredo de Castilho, que ficava entre as ruas Quintino Bocaiúva, Silvério São João, Rubens Arruda e José Aielo (Foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru)

O estádio Alfredo de Castilho guarda diversas curiosidades. Durante sua construção, ferroviários utilizaram trilhos de ferro no lugar de ferragens em alguns pontos, como na cobertura da arquibancada, postes de iluminação, alambrado do ginásio Panela de Pressão e no muro de arrimo.

O Palmeiras entregou uma placa em homenagem à inauguração do estádio em 1960, atualmente fixada em uma das entradas da arquibancada coberta.

Uma das traves do antigo estádio de madeira, destruído pelo incêndio, ainda existe e está instalada ao lado do ginásio. Segundo relatos, Pelé teria marcado gols nela quando passou brevemente pelo Noroeste, antes de ser contratado pelo Santos, período em que disputou três partidas pelo clube.

Atrás da sala de imprensa, há trilhos onde ficava exposta a locomotiva nº 1, que hoje integra o acervo do Museu Ferroviário.

Em 4 de novembro de 1988, após duas décadas de negociações, a Rede Ferroviária Federal vendeu o estádio ao Noroeste. O clube pagou 47 milhões de cruzados em cinco anos, com carência de seis meses. A conquista é atribuída, em grande parte, ao empenho de Claudio Amantini, que articulou apoio político ao longo de 20 anos, com auxílio do ex-deputado Tidei de Lima nas tratativas com o governo federal.

No dia 11 daquele mês, a conquista foi celebrada com a festa "Independência do Noroeste", no ginásio Panela de Pressão, reunindo cerca de quatro mil pessoas e com a distribuição de oito mil litros de chope.

Alfredo de Castilho (Foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru)
Alfredo de Castilho (Foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru)
Incêndio de 1958 que atingiu o estádio do Alfredo de Castilho (Foto: Arquivo/Bauru Ilustrado)
Incêndio de 1958 que atingiu o estádio do Alfredo de Castilho (Foto: Arquivo/Bauru Ilustrado)
Trave do primeiro estádio está preservada no Alfredão (Foto: Priscila Medeiros)
Trave do primeiro estádio está preservada no Alfredão (Foto: Priscila Medeiros)
Estrutura da arquibancada é feita de trilhos de trem (Foto: Priscila Medeiros)
Estrutura da arquibancada é feita de trilhos de trem (Foto: Priscila Medeiros)

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