Em 2026, o Brasil vive um ano de eleições gerais, o que recoloca diante da nação uma pergunta decisiva: que tipo de administração pública necessitamos? Nesse contexto, não basta avaliar apenas competência técnica, carisma ou força eleitoral; é indispensável considerar também os valores morais que devem orientar o exercício do poder. Nesta breve análise, proponho colocar lado a lado o pensamento de Maquiavel, em O Príncipe, e os princípios das Escrituras, a fim de discernir à luz da verdade bíblica os fundamentos de uma administração pública justa e legítima. Maquiavel parte de uma análise realista, dura e desiludida da política. Em vez da antiga divisão clássica entre Monarquia (governo de um), Oligarquia (governo de poucos) e Democracia (governo de muitos), ele distingue basicamente repúblicas e principados. O problema central para ele não é primeiramente a justiça, mas a estabilidade do governo, como conquista-lo e mantê-lo.
Para Espinosa, talvez Maquiavel não tenha pretendido apenas instruir governantes, mas também advertir os povos quanto ao perigo de entregar o próprio bem-estar a um único homem. Quando todo o poder se concentra numa só pessoa, esse governante passa a viver dominado pelo medo de conspirações, pela necessidade de preservar a si mesmo e pela tentação de manipular o povo em vez de verdadeiramente protegê-lo. Assim, a obra pode ser lida não apenas como manual de poder, mas também como denúncia da fragilidade dos regimes sustentados pela astúcia e pelo temor.
Ao longo de O Príncipe, Maquiavel afirma que o governante precisa unir 'virtù' e fortuna. A 'virtù' em seu vocabulário, não é virtude moral no sentido cristão, mas capacidade de agir com energia, coragem, cálculo, flexibilidade e firmeza. A fortuna representa o acaso e as circunstâncias. O bom príncipe, para Maquiavel, é aquele que sabe adaptar-se ao tempo, usar a força quando necessário, explorar oportunidades e impedir que a instabilidade destrua seu domínio. Daí surgem suas teses mais conhecidas: "é mais seguro ser temido do que amado"; "promessas podem ser quebradas se forem do interesse do Estado"; "a crueldade, se concentrada e útil, pode ser politicamente vantajosa"; "o governante deve ser, ao mesmo tempo, leão e raposa". É exatamente aqui que o pensamento bíblico se ergue como correção e juízo. A Bíblia reconhece a importância da autoridade civil, mas nunca a desvincula da justiça, da verdade e da responsabilidade diante do Criador. Romanos 13 mostra que a autoridade existe para servir ao bem e punir o mal, não para se autopreservar a qualquer custo. Provérbios 29.2 afirma que quando o justo governa, o povo se alegra, mas, quando o ímpio domina, o povo geme. A medida bíblica do governo, portanto, não é apenas sua eficiência em manter-se, mas o efeito moral e social que ele produz sobre os governados.
Enquanto Maquiavel admite em seu tratado político a mentira útil, a dissimulação e a manipulação, a Escritura exige integridade. 'A balança enganosa é abominação para o Senhor' (Pv 11.1), e 'o que anda em integridade anda seguro' (Pv 10.9). Enquanto Maquiavel relativiza a promessa em nome do sucesso governamental, a Bíblia ensina que o governante deve amar a verdade, odiar a avareza e julgar com retidão. Êxodo 18.21 descreve o perfil dos que devem exercer autoridade: homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza. Isso transforma tudo. Na perspectiva cristã governar não é vencer a qualquer preço, mas administrar sob o olhar do Criador. O governante imbuído de valores cristãos não deve desejar ser temido por sua crueldade, mas respeitado por sua justiça. Jesus ensinou que a verdadeira grandeza se manifesta no serviço: 'quem quiser tornar-se grande entre vós será esse o que vos sirva' (Mc 10.43). Esse princípio é revolucionário para a administração pública. O líder não existe para usar o povo como escada de poder; existe para promover o bem comum, proteger os fracos, agir com imparcialidade, punir com justiça e servir com humildade.
Por isso em ano eleitoral, a verdade exige discernimento. Maquiavel ajuda a compreender os mecanismos do poder como frequentemente opera num mundo caído; a Bíblia porém, revela como o poder deve ser ordenado diante de Deus. O eleitor consciente deve observar caráter, compromisso com a verdade, respeito à justiça, responsabilidade para com os pobres e temor de Deus. A política sem freios morais corrói a alma de uma nação. A administração pública sob os valores bíblicos, ao contrário, afirma que autoridade é serviço, poder é encargo e governo só é legítimo quando realmente submetido à justiça de Deus